<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187</id><updated>2012-02-24T12:33:46.492-08:00</updated><title type='text'>CRIATURAS</title><subtitle type='html'>Aqui serão publicados, periodicamente, os contos já publicados pelo autor e, eventualmente,alguns comentários críticos sobre os mesmos. Não estranhe, porém, se encontrar notícias, comentários e proto textos.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>35</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3956281276576704851</id><published>2009-03-29T16:51:00.000-07:00</published><updated>2009-03-29T16:57:09.125-07:00</updated><title type='text'>PECCATA MUNDI</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SdAKmAkFDvI/AAAAAAAAAEc/mQOrShXZXac/s1600-h/GULA.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5318762808027188978" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 187px; CURSOR: hand; HEIGHT: 250px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SdAKmAkFDvI/AAAAAAAAAEc/mQOrShXZXac/s320/GULA.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;CAPÍTULO 2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vigário Carrão sempre acalentou a idéia de um dia tornar-se cardeal. Atraía-o a pompa e circunstância do cargo, a aura de poder daqueles príncipes da igreja, sempre gordos, rotundos, elegantes; pesava também na sua admiração a boa vida que deveriam levar, o pouco trabalho que deveria dar ser um cardeal, principalmente se morasse no Vaticano, sem contar a influência e o prestígio que tais figuras sempre exercem e gozam.&lt;br /&gt;Na verdade, ainda em Portugal, ele primeiro sonhou ser um marquês, senhor de muitas terras, um fidalgo das cortes, coisa impossível para um filho de camponês como ele. Depois pensou ser burguês, banqueiro, mas nunca teve tostão algum para começar aquela atividade progressista. Foi quando seu pai o obrigou a seguir a carreira religiosa, único jeito de ser alguma coisa sem ter de gastar o dinheiro que o pai não tinha. Assim, o jovem Leocádio foi lavar latrinas no seminário, lá começou a estudar, e iniciou sua carreira em direção ao cardinalato.&lt;br /&gt;Ainda como lavador de latrinas no seminário, descobriu que sua vocação religiosa, sem desprezar a fé nos dogmas, incluía a posse de terras, o desejo de ouvir o barulho mavioso e doce de moedas sonantes, e uma grande sensação de impunidade por pertencer à Santa Madre Igreja. Para ele, na verdade, este sentimento de impunidade era traduzido por uma profunda confiança na bondade divina, no perdão dos pecados, mesmo os mais cabeludos, através do sacramento da confissão. Confissão tanto mais eficaz, quanto mais direta, sem intermediários, como acontecia com as que ele fazia ao próprio Deus. Aos seus confrades ele declarava somente o trivial variado.&lt;br /&gt;Quando foi ordenado padre, essa sua nova posição eclesiástica não foi suficiente para retirá-lo da senda que levava a costumes não de todo recomendáveis a pastores da igreja. Assim, foi sonhando com as riquezas do novo mundo, com a catequese no meio dos índios e com sua futura liderança da igreja, que o padre Leocádio Carrão Brindeiro veio aportar por estas terras.&lt;br /&gt;Ainda em Portugal, o jovem Carrão, em função de sua pouca idade, quando a carne esquenta e o sangue ferve, andou cometendo pequenos delitos e pecados carnais que obrigaram seus superiores a vigiá-lo mais de perto. O certo é que com tão pouco tempo de ordenamento o jovem padre era obrigado a se confessar quase todos os dias e a fazer penitências e sacrifícios que, se serviram para lhe apagar os pecados anteriormente cometidos, pouco adiantaram no que diz respeito à prevenção dos que estavam por acontecer.&lt;br /&gt;De pecadilho em pecadilho, de deslize em deslize, de esbórnia em esbórnia, o destino terminou fazendo o jovem padre aportar aqui, nessa Filipéia de Nossa Senhora das Neves, numa espécie de degredo religioso, castigo que ele terminou aceitando como dádiva.&lt;br /&gt;É certo que aqui ele via enterradas suas pretensões de rápida ascensão na carreira eclesiástica, coisa que ele já não desejava com o mesmo entusiasmo, se bem que mesmo com essa desistência consciente, nada o impedia de continuar sonhando com as vestes púrpuras dos velhos cardeais, de se ver abençoando a multidão nas cerimônias no pátio da igreja de São Pedro ou de numa mão ter as chaves do céu e na outra as chaves do cofre do Vaticano. No dia-a-dia, quando a bruma dos sonhos se esvaía por completo, ele voltava a ser tentado pelo chamamento da carne, esse sim, bem real.&lt;br /&gt;Os problemas do padre Carrão eram as tentações que o afligiam, aqueles desejos e sensações que a Igreja condenava, como os sete pecados capitais, por exemplo, dos quais ele tinha uma enorme dificuldade de fugir.&lt;br /&gt;Uma das suas maiores fraquezas era a mesa. Foi assim desde criança, quando nada parecia satisfazer sua fome e, muitas vezes, fazia incursões furtivas às reservas alimentares que porventura sua mãe escondesse para as ocasiões de aperto. Agora adulto, atacava leitões, capões, franguinhos e perus com a mesma determinação com que os cruzados atacavam os mouros e as despensas pagãs.&lt;br /&gt;Que culpa tinha ele de o vinho ter esse sabor de néctar, ser tão suave e aveludado a ponto de lhe provocar aquela sensação de flutuação que devem sentir os anjos nos seus vôos sobre o paraíso? O que o perdia completamente eram aquelas farofas fenomenais, os guisados indescritíveis, as costeletas douradas, os assados sem comparação, feitos de propósito para dar água na boca. E o que dizer dos molhos pardos, dos criminosos molhos de cabidela que a negra da cozinha fazia como ninguém? E o que na terra se compara a essa ligeira vertigem que se sente quando de pança cheia, bucho sangrando, vem a vontade de se deixar cair em uma rede macia num recanto silencioso e ventilado?&lt;br /&gt;Era, então, nesses preciosos momentos que lhe vinham os maus sonhos – batalhões de belzebus vestidos e encapuzados como os padres da Santa Inquisição – atrapalhando o sono tranqüilo que coroaria aquela sua principesca refeição.&lt;br /&gt;Depois que se iam esses sonhos maus, começava a metralha de flatos e roncos que, de tão altos e constantes, confirmavam para toda a vizinhança que Sua Reverendíssima, o vigário Carrão, fazia a sua sesta.&lt;br /&gt;O vigário comia muito, dormia com fartura, mas não esbanjava os recursos escassos que Deus espalhou pelo mundo e tanto trabalho dão para se conseguir. Seus escravos, além dos agregados livres e serviçais que viviam às suas expensas, comiam cada um a sua ração de feijão e batatas, sem contar com os normais surrupios do que sobrava à mesa que a negra da cozinha não deixava de fazer.&lt;br /&gt;O vigário Carrão tinha especial predileção pelas moedas de ouro. Tratava todas e cada moeda de seu cofre como se fosse a última moeda da face da terra e era mais fácil ver o joelho da madre superiora do que um reflexo, mesmo pálido, de uma das inúmeras peças de seu tesouro.&lt;br /&gt;E se padecia do pecado da inveja, este se restringia ao tesouro do Vaticano, ao tesouro da Coroa portuguesa e ao que deveria ter acumulado o governador da província. Claro que invejava a boa vida, o prestígio e o dolce far niente que imaginava ter o bispo, seu superior; e quando via o governador da província no seu luxuoso cabriolet não deixava de enumerar todos os defeitos que lhe eram atribuídos, relembrar todos os pecados que lhe havia confessado e todas as falcatruas que fizera para chegar a tão alto posto; também, verdade seja dita, não poder ir, livremente, como todos os homens de bem da província, ao prostíbulo e lá tomar dos melhores vinhos e gozar da companhia das mais belas mulheres, era uma coisa que sinceramente, invejava.&lt;br /&gt;Mas nenhum daqueles empertigados senhores, embalsamados nas suas casacas e envoltos na sua prepotência, possuía a fortuna que ele possuía. Era o homem mais rico da província. Podia segurar algumas barras de ouro em sua mão como se fossem rapaduras e tomava vinhos caros – às escondidas, é verdade -, mas tomava; e se não era uma alta autoridade da igreja, - e aí ninguém o superaria em vestes brilhantes e em prepotência – superava a todos em bens e escravos, com a vantagem.&lt;br /&gt;No dia-a-dia era um homem afável, até educado, desde que o interlocutor fosse de determinada posição social ou, quando não fosse o caso, pudesse lhe trazer algum benefício, ou, para ser mais explícito, lucro. Só perdia a compostura e se zangava, atingindo a raias da ira, pecado que mais tarde e prontamente ele confessava e apagava com penitência, quando lhe quebravam alguma vasilha na cozinha, lhe passavam a perna em algum negócio, coisa muito rara, ou quando imaginava que o sacristão andava a beber os vinhos da adega da paróquia que, por serem caros, não podiam ser desperdiçados por quem não tinha as investiduras sacerdotais.&lt;br /&gt;Apesar do que diziam as más línguas, o padre Carrão era um vigário diligente. Quando se tratava de fazer os balancetes de suas fazendas, calcular os juros dos empréstimos ou negociar partidas de açúcar, escravos, rapadura ou cachaça, não havia quem lhe chegasse aos pés. Transformava-se num adolescente transbordante de energia. Seus olhos brilhavam como brilham os olhos dos jovens enamorados.&lt;br /&gt;Nas negociações que envolviam dinheiro, era imbatível. Ninguém melhor que ele para realçar as qualidades do que era seu, e rebaixar, sem ferir os brios do outro – e aí estava seu segredo –, as qualidades dos produtos do oponente. Nesses momentos era possuído de uma força estranha que fazia com que considerasse meia rapadura como se fosse um lingote de ouro ou uma partida de escravos, e dez réis como se fosse todo o tesouro do Vaticano.&lt;br /&gt;As únicas coisas para as quais, às vezes, lhe faltavam energia e vontade eram os casamentos e batizados – sempre numa quantidade que excedia o tempo disponível, principalmente quando eram desses que a obrigação sacerdotal manda que sejam feitos gratuitamente e dos quais não vem nada para os cofres da igreja.&lt;br /&gt;Não era preguiçoso, como diziam alguns de seus detratores ou invejosos de sua boa sina, era o cansaço por ter tantas atividades e o dia ter somente vinte e quatro horas. Tanto não era preguiça que rezava quase todas as missas que lhe impunha a obrigação de vigário, sempre às quartas e domingos, sem sermões muito demorados, é verdade, pois os senhores da província já os conheciam de cor, e os pobres diabos, que nem sabiam ler nem escrever, com certeza não os compreenderiam.&lt;br /&gt;O vigário orava e se penitenciava como ninguém, justiça lhe seja feita. Principalmente quando no ardor de um negócio, tinha que lançar mão de certos expedientes para garantir seu lucro. Alguns impostos que eram esquecidos, certas partidas de mercadorias que não entravam na contabilidade; presentes que dava em troca da boa vontade de certos coletores de impostos ou da presteza com que foi atendido por este ou aquele membro do governo. Aí não contabilizava certos afagos que fazia ao chefe da força pública quando tinha necessidade da proteção para certos negócios que sua atividade exigia.&lt;br /&gt;Também muito se mortificava quando os encantos de uma dama o faziam escorregar dos leitos matrimoniais – afinal eram três – ou quando uma escrava jovem o atraía com a força com que um imã atrai o ferro. Seu único refrigério era a penitência e a certeza de que nascera assim e nada podia fazer. O que podia ele, pobre homem mortal, pura carne pecadora, fazer contra os desígnios da natureza a não ser rezar e se penitenciar?&lt;br /&gt;Afora isto, vez por outra, a fraqueza lhe impunha dois ou três pecados mortais que, não fosse a enorme força da absolvição, seriam suficientes para queimá-lo no fogo do inferno por toda a eternidade. Talvez fosse por esses que, sem nenhuma razão aparente, a não ser aquela que dorme no mais escondido desvão de escada da nossa consciência, o vigário Carrão sonhava com a Santa Inquisição.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3956281276576704851?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3956281276576704851/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3956281276576704851&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3956281276576704851'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3956281276576704851'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/03/peccata-mundi.html' title='PECCATA MUNDI'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SdAKmAkFDvI/AAAAAAAAAEc/mQOrShXZXac/s72-c/GULA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-5326259733676470187</id><published>2009-03-29T16:45:00.000-07:00</published><updated>2009-03-29T16:49:58.863-07:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO</title><content type='html'>&lt;strong&gt;PARTE 10&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horacio Quiroga é o primeiro contista qua contista (gosto dessa palavra latina, qua, porque lembra água, aqua, e repetida, qua, qua, parece um chamariz para patos, quá, quá, quá) e um louco perseguido pelo infortúnio. Perdeu o pai num acidente de caça (caçava patos na fronteira do Uruguai com a Argentina: os dois países reivindicam sua paternidade) e seu padrasto se suicidou pouco depois. Perder o pai pode ser uma desgraça, mas perder um padrasto me parece um descuido.&lt;br /&gt;Ambos, tomem nota, por favor, morreram de morte violenta. Poucos anos depois, Quiroga matou seu melhor amigo, no que os juízes qualificaram de acidente. Quiroga se casou, e, não muito depois da lua-de-mel (ele obrigou sua jovem mulher a passá-la na mais densa selva brasileira), quase nem preciso dizê-lo, foi a vez de ela se suicidar. Casado mais uma vez, sua nova mulher, como a oitava de Barba Azul, sobreviveu a ele. Doente de câncer da próstata (até nisso ele foi um pioneiro), Quiroga escolheu o suicídio.&lt;br /&gt;Detive-me na vida de Horacio Quiroga porque parece uma violenta telenovela e é mais interessante que sua ficção - que não é menos violenta. Um de seus livros de contos se chama A Galinha Degolada. No conto que dá título e tom ao volume, dois irmãos gêmeos, ambos idiotas, têm uma linda irmãzinha. Mas os dois irmãos vêem - ou melhor, observam - a madre degolar uma galinha para o jantar. Eles provam que a imitação é a mãe da experiência e cortam o pescoço da irmãzinha.&lt;br /&gt;Li os contos de Quiroga, todos, na adolescência e acreditei em todos. Eu era, como vocês já devem ter deduzido, mentalmente são, mas impressionável. Agora, mesmo que me ameaçassem com a expulsão deste encontro, eu não os leria nem amarrado. Vocês já devem ter deduzido também que Horacio Quiroga era dependente não só de morfina mas da literatura de Poe.&lt;br /&gt;Outro escritor de contos nascido na Argentina, mas com a cabeça bem no lugar, é Adolfo Bioy Casares. Muitas vezes é associado a Jorge Luis Borges só porque eram amigos e colaboravam em empresas narrativas. Alguém os chamou, a ambos, Biorges. Mas Bioy continuou escrevendo depois da morte de Borges e foi cada vez mais individual e distinto, não apenas no porte mas na escritura. Bioy escreveu a mais comovente história de amor da literatura em espanhol do século 20. Chama-se A Invenção de Morel e, embora alguns a chamem de romance, é uma novela ou conto longo e, para mim, é perfeita. É a melhor ilustração do conselho francês "cherchez la femme".&lt;br /&gt;Agora uma breve interpolação para falar, brevemente, embora ele mereça ensaios e tratados, desse grande autor: um americano que não escreve em espanhol e que não segue a tradição de sua língua, porque está criando as duas. Refiro-me a Machado de Assis, o único grande romancista sul-americano do século 19, que é também um contista extraordinário: sempre original, sempre na vanguarda de um homem só. Leiam, como aperitivo para o festim de um Trimalcião literário, seu conto "O Alienista".&lt;br /&gt;O uruguaio Felisberto Hernández era o oposto físico do cubano Virgilio Piñera. Não gostava de homens magros, como Virgilio, mas de mulheres, muitas, gordas e caras: casou-se quatro vezes. Ao contrário de Virgilio, que nunca foi musical, Felisberto (podemos chamá-lo Felisberto: ninguém se chama assim) era um músico profissional, que, curiosamente, trabalhava como pianista de teatro, mas não de palco, e sim no fosso, e não para acompanhar sopranos, mas fazendo música de fundo para filmes mudos.&lt;br /&gt;Suas vidas opostas tiveram um final parecido, mas diferente. Virgilio morreu reconhecido como pederasta passivo, com passagens pela prisão, condenado por invertido. Sua morte foi chorada por poetas pederastas, mas seu cadáver desapareceu do velório: as autoridades estavam convencidas de que seu corpo presente recriaria o ausente com fins políticos. Felisberto morreu de leucemia muito mais jovem que Virgilio, mas seu corpo inchou tanto que foi preciso procurar às pressas um caixão adequado, uma coisa tão enorme que não pôde ser tirada pela porta da funerária e saiu para a eternidade por uma janela.&lt;br /&gt;Há um provérbio latino que propõe que se chega ao final da vida conforme se viveu. Os respectivos finais de Virgilio Piñera e Felisberto Hernández foram, se não vidas, mortes paralelas. Acho que não por acaso a editora americana que publicou os Contos Frios de Piñera agora publique os contos completos de Hernández. Mas vale notar e anotar uma diferença notável: Felisberto estava meio louco, Virgilio, ao contrário, sempre teve a cabeça bem assentada na guilhotina. Precisava apenas de uma revolução, e a teve.&lt;br /&gt;Juan Rulfo chamou Guimarães Rosa de "o maior autor surgido nas Américas neste século". Não se deve exagerar, mas Guimarães Rosa, que escreveu o melhor romance do chamado "realismo mágico", é um grande escritor. Para deleite de vocês (já que sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas é longa, complexa e metafísica), ele tem um volume de contos, mais zen do que sensacionais, intitulado Primeiras Estórias, que em espanhol ganhou o sugestivo título de um de seus textos, "A Terceira Margem do Rio". Há outros compatriotas de Machado de Assis que vale a pena citar, ainda que rapidamente. Murilo Rubião, com seu conto "O Ex-Mágico da Taberna Minhota", que é "sui generis", como são os contos de João Ubaldo Ribeiro, sobretudo seu "Foi um Dia Diferente o da Matança do Porco" e o elusivo e alusivo Rubem Fonseca, que com seu “Corações Solitários" criou um escândalo internacional ao ser proibido pelas autoridades de seu país.&lt;br /&gt;O escândalo chegou aos ouvidos do presidente Carter, mais conhecido como "el manisero", não por causa da saborosa rumba havanesa, mas por ter enriquecido cultivando amendoim. Há outra rumba chamada "Tanta Lipidia por un Medio de Maní" cujo título me leva a explicar aqui meu interesse e até meu afeto pelos cariocas do conto. Não há outro país na América que se pareça tanto com a minúscula Cuba como o gigantesco Brasil: ambos têm sua musicalidade na música e na língua, ambos são uma mistura de brancos ibéricos e negros africanos, ambos criaram uma nova religião, que no Brasil se chama macumba e, em Cuba, "santeria".&lt;br /&gt;Todos acreditamos que o ritmo não está só na música mas na fala, nos movimentos do corpo e nesse balanço que em Havana se chama "el caminao". Este meu ensaio, por exemplo, foi escrito como falam em Havana os "hablaneros".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-5326259733676470187?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/5326259733676470187/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=5326259733676470187&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/5326259733676470187'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/5326259733676470187'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/03/uma-historia-do-conto.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-4898299634339541925</id><published>2009-02-23T05:44:00.001-08:00</published><updated>2009-02-23T05:52:05.172-08:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SaKp-PCt3II/AAAAAAAAAD8/h1ad7C0ohI8/s1600-h/carnaval.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5305990197650775170" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 116px; CURSOR: hand; HEIGHT: 114px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SaKp-PCt3II/AAAAAAAAAD8/h1ad7C0ohI8/s320/carnaval.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;&lt;strong&gt;Carnaval&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Geraldo Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anteontem vendera o relógio para almoçar. Hoje já não sabia o que fazer. Tinha um sábado de carnaval pela frente, nenhum tostão no bolso e uma farra coletiva que o esperava nas ruas da cidade. Talvez fosse essa a salvação. Mesmo sem dinheiro, beberia. A solidariedade dos bêbados talvez até propiciasse alguma comida num boteco, um lanche.&lt;br /&gt;Com o que tinha arremedou uma fantasia, espalhou um resto de Maizena no rosto e na cabeça e saiu para a rua já imitando um bêbado, apesar das 10 horas da manhã. Ali no centro, encontrou caveiras, mendigos, dráculas, bichas e travestis, todos esperando um clima que a cachaça ainda não conseguira estabelecer. A sua imitação devia estar perfeita, mas ainda era cedo para tentar abordar algum grupo, acercar-se de uma rodinha de samba. Andou pela praça até começarem a circular alguns carros com troças, rodas de samba motorizadas com filhinhos de papai atirando jatos de lança-perfume para o ar. Algumas horas depois a praça estava cheia, ele de barriga vazia e tentando agarrar algumas garrafas que sempre escapuliam, nunca chegava à sua mão, a não ser quando já estavam vazias. Não conseguira abordar nenhum folião que tivesse bebida disponível e possibilitasse um gole de qualquer coisa. Um gole só. Talvez sua imitação não fosse convincente ou sua timidez não estimulasse a prodigalidade dos bêbados.&lt;br /&gt;Já sentia certo mal estar, uma tontura, um desfalecimento se instalando pelo corpo. A fome. Agora iria criar coragem e abordar alguém, o primeiro que aparecesse. Foi até uma lanchonete que estava aberta e ficou olhando o interior do balcão-vitrine.&lt;br /&gt;Ah, como gostaria de ser aquelas abelhinhas! Passeando sobre o mel do pão doce, lambuzando-se nos cristais de açúcar, comendo aquela casquinha marrom, o miolo alvo, aventurando-se naqueles buraquinhos cheirosos, melando as patinhas cabeludas naquela geléia amarela e perfumada do creme! O rosto refletido no vidro do balcão, fundia a sua imagem com o pão, com as abelhas, numa proximidade tentadora. Fez um gesto com a boca e sua imagem abocanha um naco de pão com abelhas, creme, açúcar; na boca real o mesmo vazio que sentia nos últimos dois dias.&lt;br /&gt;O mesmo vazio na boca, agora com uma catarata de saliva pegajosa e o hálito ruim daquela cárie. Gostou da sua imagem de pirata. O lenço colorido e brilhante estava bem; o tapa-olho desenhado é que lhe dava a imagem de quem havia levado um murro; os brincos, apesar de meio esverdeados, compunham bem a imagem. Os outros foliões passavam refletidos pelo vidro, mas não ameaçavam apossar-se do seu pão, de suas abelhinhas.&lt;br /&gt;Uma tribo indígena passou cambaleante às suas costas. Voltou-se para ver. Gostava do som dos pífanos. O compasso da música era estranho. Parece que tentava acompanhar o índio forte, lá na frente, que lutava para manter ereto o estandarte, um enorme cocar de penas e vidrarias que o vento tentava derrubar e a aguardente dificultava manter a prumo. Brancos, também embriagados, tentavam chafurdar na esquisita harmonia da tribo. Pelo descarnado da cara, o estado dos dentes e a textura das fantasias dava para ver que os índios estavam piores do que ele. Um carnaval de fodidos, pensou. A folia dos deserdados.&lt;br /&gt;Esqueceu por um momento suas abelhinhas para ver uma troça de estudantes que passava. Agitou os braços, ensaiou uns passos, mas logo sentiu que não podia continuar. Não havia bebido, não havia comido. Preferiu admirar as roupas sumárias das moças, corpos roliços, pernas bem feitas, a pele bronzeada destacando uma penugem loura nas coxas, nos braços. Que diferença entre sua pele e a das moças que passavam; um desfile de sultões e odaliscas contra um faminto pirata cor de icterícia. Os adornos, a pintura daqueles rostos, contra ele e seu punhado de Maizena sobre a cabeça.&lt;br /&gt;Como pode ser? Um pirata, imitando um bêbado desde cedo, sem um tostão no bolso e ainda por cima sem conseguir que alguém lhe dê um gargarejo de bebida em pleno sábado de carnaval!&lt;br /&gt;Por que não voltar para seu quartinho fedorento, armar sua rede e dormir, dormir. Com o sono a fome passa, também ela adormece. Por que não adoecia logo como aqueles seus colegas de olhos cavos e chiado no peito, seus vizinhos de quarto? Não seriam ruim uma febre, uns vômitos, pois só assim teria a ajuda de Darlene e Suzana, também vizinhas, e que mesmo após saírem do cabaré às quatro, ainda faziam chá, traziam bolachas e esquentavam os estudantes doentes com o calor dos seus peitos, botava-os para dormir com o cheiro do seu perfume.&lt;br /&gt;Mandei fazer uma linda fantasia bem diferente por ser toda de capim. Essa música, cantada agora por aquela velhinha bêbada, o deixa mais tonto, lembrando da mãe, do pai, de sua casa, do velho rádio de olho mágico que diminuía quando entrava a Rádio Clube de Pernambuco. Gostava da voz de Claudionor Germano um dos poucos cantores que ouvia quando era menino.&lt;br /&gt;As pernas já estavam bambas, mas foi até um grupo de homens vestidos de mulher onde algumas garrafas rodavam de mão em mão. Conseguiu pegar uma na passagem e tomou um grande gole. Uma explosão. Relâmpagos infinitesimais disparam em suas veias, um tufão de luz e calor subindo, tomando o fôlego, girando a praça e os foliões, deixando-o inconsciente por segundos. Depois, uma grande calmaria, um fogo dentro, o início da percepção indivisa das coisas. Mais alguns goles, e as coisas começam a adquirir cores mais vivas, outras se distanciam, depois vem um véu que dilui os contornos, mistura tudo numa suave confusão. Mais alguns goles e as pernas ficam mais bambas ainda. Melhor sentar. Volta à vitrine, volta a olhar suas abelhinhas embriagadas de mel. Apóia-se na parede. Vem uma ligeira náusea, um engulho, um rodopio.&lt;br /&gt;É noite, muita luz, e sem saber como, está no meio do salão de um clube que ele nem sabe qual é. Só alegria, luz, bebida, lança-perfume, belas fantasias. As mesmas garotas de pele bronzeada e penugem loura sobre as coxas agora o abraçam, acreditando talvez que sua cor de icterícia seja pintura, fantasia. Assim, pula toda a noite sem reparar na comida sobre as mesas. Só quer as garrafas, o suor daqueles corpinhos esguios, o porre da lança que o atira quase na borda do paraíso. Pega seu lenço, faz um jato e o aproxima do nariz. Ainda percebe os primeiros clarins de vassourinhas entre a aspiração profunda e o apagamento completo.&lt;br /&gt;Acorda com o bafo quente das narinas do burro do catador de lixo soprando no seu rosto. Pensa tratar-se do jerico que come fantasias - ainda aquela música - e levanta meio adormecido. Na madrugada quase fria, divisa a praça e aqueles mesmos figurantes do dia anterior caídos sob bancos, acariciando garrafas, abraçando postes de luz. Alguma coisa pesa, não sabe bem se no peito ou no estômago. Pensa no baile sem ter certeza, ainda, se foi sonho e sai em busca de seu quarto, de sua pensão. Talvez agora venha uma gripe, tenha alguma febre, quem sabe uma pneumonia leve e possa ter, como os outros, as bolachas, o chá, uma sopinha; possa adormecer com o adocicado perfume de Darlene, se proteger com os ternos seios de Suzana.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;(Do livro "&lt;em&gt;Aquelas criaturas tão estranhas&lt;/em&gt;" Ed. Rio Fundo - 1995.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-4898299634339541925?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/4898299634339541925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=4898299634339541925&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4898299634339541925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4898299634339541925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/02/conto.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SaKp-PCt3II/AAAAAAAAAD8/h1ad7C0ohI8/s72-c/carnaval.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3093724303054395952</id><published>2009-02-23T05:40:00.000-08:00</published><updated>2009-02-23T05:43:51.675-08:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 10</title><content type='html'>Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horacio Quiroga é o primeiro contista qua contista (gosto dessa palavra latina, qua, porque lembra água, aqua, e repetida, qua, qua, parece um chamariz para patos, quá, quá, quá) e um louco perseguido pelo infortúnio. Perdeu o pai num acidente de caça (caçava patos na fronteira do Uruguai com a Argentina: os dois países reivindicam sua paternidade) e seu padrasto se suicidou pouco depois. Perder o pai pode ser uma desgraça, mas perder um padrasto me parece um descuido.&lt;br /&gt;Ambos, tomem nota, por favor, morreram de morte violenta. Poucos anos depois, Quiroga matou seu melhor amigo, no que os juízes qualificaram de acidente. Quiroga se casou, e, não muito depois da lua-de-mel (ele obrigou sua jovem mulher a passá-la na mais densa selva brasileira), quase nem preciso dizê-lo, foi a vez de ela se suicidar. Casado mais uma vez, sua nova mulher, como a oitava de Barba Azul, sobreviveu a ele. Doente de câncer da próstata (até nisso ele foi um pioneiro), Quiroga escolheu o suicídio.&lt;br /&gt;Detive-me na vida de Horacio Quiroga porque parece uma violenta telenovela e é mais interessante que sua ficção - que não é menos violenta. Um de seus livros de contos se chama A Galinha Degolada. No conto que dá título e tom ao volume, dois irmãos gêmeos, ambos idiotas, têm uma linda irmãzinha. Mas os dois irmãos vêem - ou melhor, observam - a madre degolar uma galinha para o jantar. Eles provam que a imitação é a mãe da experiência e cortam o pescoço da irmãzinha.&lt;br /&gt;Li os contos de Quiroga, todos, na adolescência e acreditei em todos. Eu era, como vocês já devem ter deduzido, mentalmente são, mas impressionável. Agora, mesmo que me ameaçassem com a expulsão deste encontro, eu não os leria nem amarrado. Vocês já devem ter deduzido também que Horacio Quiroga era dependente não só de morfina mas da literatura de Poe.&lt;br /&gt;Outro escritor de contos nascido na Argentina, mas com a cabeça bem no lugar, é Adolfo Bioy Casares. Muitas vezes é associado a Jorge Luis Borges só porque eram amigos e colaboravam em empresas narrativas. Alguém os chamou, a ambos, Biorges. Mas Bioy continuou escrevendo depois da morte de Borges e foi cada vez mais individual e distinto, não apenas no porte mas na escritura. Bioy escreveu a mais comovente história de amor da literatura em espanhol do século 20. Chama-se A Invenção de Morel e, embora alguns a chamem de romance, é uma novela ou conto longo e, para mim, é perfeita. É a melhor ilustração do conselho francês "cherchez la femme".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3093724303054395952?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3093724303054395952/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3093724303054395952&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3093724303054395952'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3093724303054395952'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/02/uma-historia-do-conto-parte-10.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 10'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-2403733968885612559</id><published>2009-01-27T15:31:00.000-08:00</published><updated>2009-01-27T15:38:03.761-08:00</updated><title type='text'>TRIGAL</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SX-amC23yHI/AAAAAAAAAD0/oa1M1qvkPnU/s1600-h/RCJMFODWAPXHTQJMVSLKXDKAQGFJQS_V_van_Gogh_Wheatfield_with_crows_jpg.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5296121665203718258" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 162px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SX-amC23yHI/AAAAAAAAAD0/oa1M1qvkPnU/s320/RCJMFODWAPXHTQJMVSLKXDKAQGFJQS_V_van_Gogh_Wheatfield_with_crows_jpg.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Querido Vincent&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem à noite não dormi. Pior. Tive pesadelos de olhos abertos. Os corvos, o trigal, aquele céu tempestuoso, profundo, denso como uma geléia, e misterioso, sensualmente tenebroso, não me deixaram dormir. Os corvos vão ou vêm? Fogem do furacão turquesa de suas pinceladas ou são atraídos por ele, sugados para um mergulho sem volta que pode representar a redenção ou a morte? Note que o trigal geme, se contorce tangido por alguma coisa que não é o vento; deita seu amarelo ouro sobre si mesmo. Medo e desfalecimento apesar da alegria nervosa sob isto que o move que, como disse, nem brisa é. O cansaço dos homens que aí mourejam não se vê. Nem precisa. Seus rastros de sangue se espalham pelos caminhos que levam ao turbilhão azul, não sei se para sempre. Agora, ainda insone, te escrevo para dizer, não, na verdade para te perguntar: Como queres que eu venda algo que só daqui a cinquenta anos será visível? Como queres que comprem algo que comove e assusta? Querido irmão, as pessoas a quem eu mostro tua obra, afastam-se dela como se o azul de sua pinceladas fosse indecifrável, como se o amarelo dos talos robusto de seu trigal os agredisse, mas ao mesmo tempo em que se afastam, o fazem dando as costas para a tela, mas com a cabeça voltada para ele. Estou te mandando algum dinheiro para que pagues tuas despesas mais urgentes. Tentarei vender alguns dos teus quadros que tenho comigo. Quanto ao trigal, está aqui na minha frente. Não consigo desgrudar os olhos dele, e assim sei que vou passar muitas noites. Espero que tuas dores de cabeça passem comestes remédios que estou lhe mandando. Gauguin pretende lhe fazer uma visita. Quem sabe possas trabalhar aí por uns tempos. Uma companhia te faria bem, apesar de eu achar que, com o temperamento dos dois, logo se criará alguma rusga entre vocês.&lt;br /&gt;Fico aqui olhando o Trigal, sabendo que não vou conseguir vende-lo tão cedo, e sabendo que enquanto não vendê-lo, vou ter muitas noites de insônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do teu irmão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Téo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-2403733968885612559?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/2403733968885612559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=2403733968885612559&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2403733968885612559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2403733968885612559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/01/trigal.html' title='TRIGAL'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SX-amC23yHI/AAAAAAAAAD0/oa1M1qvkPnU/s72-c/RCJMFODWAPXHTQJMVSLKXDKAQGFJQS_V_van_Gogh_Wheatfield_with_crows_jpg.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6477361180352643036</id><published>2009-01-27T15:26:00.000-08:00</published><updated>2009-01-27T15:27:31.983-08:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 9</title><content type='html'>Por    Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O conto espanhol da América&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cervantes, ninguém duvida disso, é um grande contista, tanto em suas Novelas Exemplares como em seus entremezes e em muitos dos contos que retardam com passos certos os incertos passos do cavaleiro, ginete louco, e seu demasiadamente sensato escudeiro que segue a seu lado num burro. Todos sabemos que os séculos 18 e 19 fizeram da Espanha uma terra baldia literária e que o grande conto espanhol que percorrerá o mundo em palcos e cinemas foi escrito por um francês. Estou falando de Carmen, cujo autor, Prosper Mérimée, situou a ação na Andaluzia, mas o escreveu em Paris.&lt;br /&gt;Assim como ocorreu nos EUA com o conto escrito em inglês, o conto escrito em espanhol será escrito na América. Um crítico peruano chamou a América (referia-se antes à América hispânica) de "romance sem romancistas". Estava enganado, é claro, mas não teria errado se tivesse chamado as Américas de continente que contém contos. Pelo menos, se o título não é exato, ele poderia ter tirado algum proveito de minha aliteração.&lt;br /&gt;Thomas Colchie, tradutor norte-americano, conseguiu organizar uma antologia intitulada A Hammock Beneath the Mangoes (Uma Rede sob as Mangueiras ou sob as mangas), o que mais parece a descrição do sutiã de, digamos, Sarita Montiel.&lt;br /&gt;Mas é uma excelente coletânea de contos breves sul-americanos. Não poderia, no entanto, ter feito uma antologia similar de contos espanhóis chamada, digamos, Os Dotes de Rocío Jurado.&lt;br /&gt;Por quê? Simplesmente porque haveria peitos a conter, mas não contos a contar. Toda regra tem uma exceção lutando por vir à tona, e deve-se dizer que uma recente coletânea de contos de Javier Marías, Cuando Fui Mortal, que contém contos não imorais, mas sim imortais, poderia continuar a tradição inaugurada por d. Juan Manuel, que foi neto e sobrinho de reis, adiantado do reino de Múrcia quando Múrcia era um reino. Mas não é o escritor da nobreza o que nos interessa, e sim a nobreza do escritor - e sobretudo sua popularidade: em poucos meses, Marías vendeu perto de 50 mil exemplares de seu livro de contos. Mas eu não vim aqui para fazer o elogio de Marías, e sim do conto americano ou hispano-americano, muito embora três dos maiores contistas cubanos (Hernández Catá, Carlos Montenegro e Lino Novás Calvo) tenham nascido na Espanha: em Castela e na Galícia, respectivamente. Lino Novás, outra surpresa, foi o verdadeiro criador dessa coisa curiosa chamada realismo mágico. Aparece pela primeira vez num conto dele, "Aquella Noche Salieron los Muertos", muito antes que Alejo Carpentier formulasse sua teoria estética (tomada emprestada de um surrealista francês) do "real maravilhoso".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6477361180352643036?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6477361180352643036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6477361180352643036&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6477361180352643036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6477361180352643036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/01/uma-historia-do-conto-parte-9.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 9'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3733696710074098407</id><published>2009-01-18T12:24:00.000-08:00</published><updated>2009-01-18T12:35:11.526-08:00</updated><title type='text'>PECCATA MUNDI - Romance Prêmio Literário Cidade do Recife - 2008 PRIMEIRO CAPÍTULO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SXOQ77f9OcI/AAAAAAAAADs/SZMdUZcptaU/s1600-h/gula+1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5292733346348874178" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 239px; CURSOR: hand; HEIGHT: 250px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SXOQ77f9OcI/AAAAAAAAADs/SZMdUZcptaU/s320/gula+1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#003300;"&gt;1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o ano da graça de 1800 e tantos, soprava uma brisa quente e cheirosa pelas ruas da cidade de Parahyba naquele fim de manhã, quase meio-dia, e essa tal brisa, perfumada pelo cheiro das mangas, mangabas, oitis e araçás, foi encontrar o padre Leocádio Carrão Brindeiro sentado à testa da mesa de refeições, arfando, a boca cheia com um naco generoso de uma coxa de galinha e o rosto sujo de farofa. Sua cara quase chafurdava no prato que comia, e suas mãos nervosas espalhavam restos de comida sobre a toalha, já suja e engordurada.&lt;br /&gt;Vestia uma batina surrada, apesar de ser um homem rico, e trazia um pano de prato, também já sujo e encardido – ao modo de um guardanapo – atado ao pescoço, adereço de todo compatível com a porcalhada que fazia na mesa à sua frente.&lt;br /&gt;Enquanto mastigava com pressa, a cozinheira entrou na sala e lhe disse ao ouvido, como se ele fosse surdo:&lt;br /&gt;– padre, tem uma pessoa aí fora querendo falar com o senhor. É um emissário do senhor de engenho, o Major Florentino.&lt;br /&gt;Sem parar de mastigar, o padre disse à cozinheira para mandar o rapaz esperar, enquanto limpava a boca com o tal guardanapo e tentava suavizar um arroto que denunciava o quanto já se empanturrara.&lt;br /&gt;O padre, apesar dos sessenta anos já vividos, era um homem ativo, forte e corpulento. Além de oficiar os sacramentos que o dever lhe impunha – mesmo que algumas vezes os achasse excessivos – cuidava de duas fazendas no Brejo, e de uma próxima à vila do Pilar, todas elas com engenho, cana, gado e escravos. Como um grande proprietário, comprava e vendia boiadas, exportava açúcar, fabricava rapadura e cachaça, emprestava dinheiro a juros, que alguns achavam extorsivos, tinha comissões em negócios que os inimigos achavam duvidosos, mantinha, supria e dava assistência a três casas, onde mantinha três amásias com quem ajudava a povoar a província da Paraíba do Norte.&lt;br /&gt;Nos atropelos de suas múltiplas atividades, padre Leocádio havia esquecido os votos de castidade em algum canto por aí e não lembrava mais onde os havia deixado. Uma vez perdido o voto de castidade, não foi difícil perder todos os demais, à medida que ia encontrando as coisas que a vida podia lhe oferecer. Foi assim com relação ao celibato, foi assim com relação à pobreza, à parcimônia e à temperança.&lt;br /&gt;Ninguém mais que ele levava a sério a exortação crescei e multiplicai-vos. Tanto que, da parte que lhe cabia, apesar dos esforços que tais proezas exigem, já havia posto no mundo dezoito filhas – das quais seis haviam morrido muito cedo – desgraciosas, ou melhor, dezessete, pois a décima oitava, Maria Esplendorosa, era delgada, graciosa, e bela como um amanhecer.&lt;br /&gt;Por serem tantas e morarem em casas diferentes, ele, como pai, só as via duas vezes por semana, umas às segundas, outras às quarta, o restante às sextas, e aos domingos quando as via reunidas na igreja. As desobediências a esse calendário só ocorriam quando o padre tinha que viajar para vistoriar suas fazendas e conferir o andamento dos seus negócios. Nos intervalos, tentava manter acesa a chama da fé que, naquela época, ali na capital da província, bruxuleava e às vezes quase apagava por completo. Se tal chama amortecia, mas não apagava, isto se devia aos cuidados que a ela devotava o nosso guloso pároco.&lt;br /&gt;Na segunda-feira, após o café da manhã, na casa da amásia número um, parte de suas filhas fazia uma fila para beijar-lhe a mão e pedir-lhe a benção. Sua benção, meu padre. Deus lhe abençoe Maria da Paz. E se seguiam Maria Dolores, Maria Anunciada, e Maria Concebida; na quarta-feira e na segunda casa, abençoava Maria das Graças, Maria das Vitórias, Maria do Amparo e Maria do Perpétuo Socorro; e na sexta-feira, abençoava Maria da Luz, Maria da Conceição, Maria das Dores, também conhecida como Maria, a horrorosa, e Maria Esplendorosa, que todos chamavam de Maria, a bela.&lt;br /&gt;Normalmente Maria Esplendorosa era a última a lhe pedir a benção, coisa que lhe enchia os olhos e lhe apascentava o coração. Quando olhava sua linda filha, sempre dizia consigo mesmo: vou arranjar um bom casamento para você, minha filha!&lt;br /&gt;No momento, porém, ele estava na casa paroquial, ainda sentado à mesa, rodeado de ossos de frango, sujo de farofa, ruminando a última porção do prato enquanto o trabalho de digestão lhe retirava qualquer vestígio de pensamento da cabeça. O torpor que normalmente sentia após a refeição não o impediu de lembrar que ainda teria de atender ao emissário do Major Florentino que o esperava.&lt;br /&gt;“Que pode querer o Major para me mandar um recado a esta hora?” Pensou enquanto dava mais um arroto, empurrava a cadeira para trás e levantava. Retirou o guardanapo do pescoço, atirou-o sobre a mesa e dirigiu-se para a sala.&lt;br /&gt;° O emissário esperava. Ao vê-lo, levantou-se, fez uma reverência, pediu-lhe a benção e beijou-lhe a mão, ainda com resquícios de cheiro do frango e da farofa.&lt;br /&gt;– Deus te abençoe – disse o padre de forma displicente –, que deseja o Major Florentino?&lt;br /&gt;– Ele pede que o reverendo padre, logo que possa, vá até sua casa para tratar de um assunto urgente.&lt;br /&gt;– Diga ao senhor Major que no fim da tarde, sem falta, estarei lá. E com um sinal da cruz mal traçado no ar, despediu o serviçal.&lt;br /&gt;Tão logo o emissário saiu, o padre dirigiu-se para o quarto onde o esperava uma rede, lugar de sua sesta habitual, ocasião em que, com calma, faria sua trabalhosa digestão e que, de acordo com o estado de seus intestinos, lhe proporcionaria um sono leve ou pesado, acompanhado de seus inseparáveis sonhos, normalmente pesadelos, os pesadelos do padre Carrão.&lt;br /&gt;Antes da chegada do sono, no entanto, o vigário pensava nos negócios, fazia balanços mentais do crescimento do seu pecúlio, imaginava formas de casar as suas filhas, algumas delas com poucas chances de que isto viesse a acontecer, e o quanto teria de perder com os dotes. Umas porque a idade já as colocava no grupo daquelas a quem só restaria rezar, fazer bordado e tecer maledicências sobre a vida alheia; outras porque a beleza não lhes havia premiado com um quinhão capaz de atrair pretendentes; outras porque tiveram a infelicidade de reunir as duas qualidades. Tanto que entre as doze o padre esperava casar umas três ou quatro, sendo que só a mais nova, Maria Esplendorosa, a bela, podia estar segura de ter o casamento garantido.&lt;br /&gt;Depois destes pensamentos, vieram aqueles momentos de dormência e abobalhamento, aquela flutuação na semi-inconsciência que o sono de barriga cheia traz. E apareceram os bois gordos flutuando sobre o capim, as patacas jorrando por uma biqueira diretamente sobre seus baús já repletos, a garapa do engenho correndo transparente como ouro líquido, montanhas de tonéis e bordalesas cheias de cachaça, pirâmides de rapaduras.&lt;br /&gt;O padre foi entrando naquele mundo brumoso, e quanto mais nele penetrava mais se afastava da visão de sua riqueza e seguia por um estreito corredor em cuja entrada havia uma tabuleta onde se lia: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!&lt;br /&gt;Lembrou já haver lido aquela frase, se a memória ainda lhe valia, em um dos cantos da Divina Comédia, no Inferno, tinha quase certeza. Ali, porém, ninguém o acompanhava, e o que sentia no sonho era dez vezes mais aterrorizante do que poderiam ser os versos do grande poeta. E o corredor ficava mais escuro e comprido.&lt;br /&gt;No fim do corredor voltou a claridade, e o monsenhor foi agarrado por dois frades encapuzados e levado a uma pedra quadrada e lisa, semelhante aos altares pagãos dos incas e astecas, em tudo lembrando um altar de sacrifícios. A pedra estava recoberta com uma crosta de sangue coagulado e exalava um mau cheiro quase insuportável. O padre teve ânsias de vômito, depois fortes engulhos que lhe trouxeram as tripas até à boca.&lt;br /&gt;Diante do altar, em um plano mais abaixo, havia uma multidão a gritar, pedindo ou dando a entender que queria ver alguma coisa excitante, algo como o desfecho final daquela cerimônia, que o padre Carrão sabia ser um sacrifício, uma execução.&lt;br /&gt;O aflito padre Carrão estava vestido com uma batina nova e portava os paramentos sacerdotais como se fosse celebrar uma missa. Atrás de si, ao invés dos coroinhas, estavam os dois frades encapuzados que o seguravam, e um terceiro que balançava um turíbulo ou incensório do qual saía uma fumaça de cheiro adocicado que mais aumentava seus engulhos.&lt;br /&gt;A multidão, que se esgoelava esperando o desfecho da cerimônia, era formada por escravos, cabras de eito, soldados, vendedores, prostitutas, mercadores de escravos, enfim aqueles que o vigário chamava a chusma, a descendência dos degredados a quem ele tinha a difícil missão de salvar do fogo do inferno. E esses mesmos pareciam querer, aos gritos, condená-lo.&lt;br /&gt;Foi colocado de pé, de costas para o público que urrava fazendo um barulho ensurdecedor. Diante de si viu sete sacerdotes sentados, cujas expressões e pompa indicavam ser aquele uma espécie de tribunal, membros do Santo Ofício, da Santa Inquisição. Ao vê-los pensou: “O tribunal dos pecados capitais!” Um, o de cara zangada, julgaria a ira, outro a soberba, outro inveja, o gordo julgaria a gula, outro a luxúria, o sexto o orgulho, e o sonolento a preguiça.&lt;br /&gt;À sua frente um frade segurava um grande rolo de papel e, com ares de mestre de cerimônia, começou a ler o grande pergaminho que se desenrolava até o chão. Padre Carrão tentou ouvir o que ele dizia, mas da boca do frade não saía nenhum som.&lt;br /&gt;A multidão silenciou para ouvir aquilo que não chegava aos ouvidos do nervoso vigário. Tudo levava a crer tratar-se dos autos de um processo, um rol das acusações que pesavam sobre ele. Finda a leitura, os sete frades se levantaram e, um a um, emitiram a sentença, cada um elevando o braço à altura do rosto e, num gesto brusco, virando o polegar para baixo. O padre achou que ia ser atirado aos leões. A multidão voltou a urrar, agora com mais intensidade.&lt;br /&gt;Os frades encapuzados o amarraram à pedra fedorenta. Agora, olhando para o céu, com nuvens ligeiras passando lá em cima, o padre só podia ouvir a gritaria da multidão e, em primeiro plano, os rostos dos dois frades encapuzados.&lt;br /&gt;Quando a barulheira já se elevava a um ponto em que quase nada mais se podia ouvir, o padre Carrão viu entrar no seu campo de visão um outro frade, este de batina branca e barba aparada, com um nariz muito parecido com o bico de uma águia, que o olhava de forma fixa com seus olhos brilhantes. Não dizia palavra. Quando este frade se adiantou, ele viu em sua mão uma machadinha cuja lâmina rebrilhava ao sol como uma jóia. Ao ver o rosto, a machadinha, e sentir o brilho dos olhos do frade de batina branca, o padre Carrão exclamou: Torquemada!&lt;br /&gt;Padre Carrão suava e tremia. Temeu ter, ali mesmo, uma incontinência urinária, ou outra, mais pastosa e menos inodora, e teve a impressão de ver um leve sorriso no rosto do frade quando este levantou lentamente a machadinha prateada. Padre Carrão quis fechar os olhos, mas não conseguiu. Quis se soltar daquelas amarras e não conseguiu. Quis gritar e não conseguiu.&lt;br /&gt;Então, viu com horror a machadinha descendo em direção ao seu pescoço bem devagar, como se fosse um movimento em câmara lenta, como pensaria o padre se naquele tempo já houvesse sido criado o cinema, e na hora exata em que a lâmina tocou o seu pescoço, a empregada ouviu um grito desesperado vindo do quarto e disse para a sua ajudante: o padre Carrão acordou!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3733696710074098407?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3733696710074098407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3733696710074098407&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3733696710074098407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3733696710074098407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/01/peccata-mundi-primeiro-captulo.html' title='PECCATA MUNDI - Romance Prêmio Literário Cidade do Recife - 2008 PRIMEIRO CAPÍTULO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SXOQ77f9OcI/AAAAAAAAADs/SZMdUZcptaU/s72-c/gula+1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-4359171030438396167</id><published>2009-01-18T12:21:00.000-08:00</published><updated>2009-01-18T12:23:25.737-08:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 8</title><content type='html'>Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Steinbeck e John Ford&lt;br /&gt;Tão contraditório quanto Faulkner foi John Steinbeck: primeiro, comunista; depois, liberal e, mais tarde, um dos defensores mais ferrenhos do presidente Johnson e da Guerra de Vietnã. Além de seus grandes êxitos novelísticos, como Vinhas da Ira (conhecido na Espanha por um título menos bíblico e mais vitícola, Las Uvas del Rencor), que é, apesar da opinião de certos críticos americanos como Mary McCarthy, uma obra-prima popularizada em todo o mundo por John Ford, Steinbeck escreveu e publicou muitos contos, e seu segundo livro, Pastagens do Céu, é uma coleção de contos. Seu conto "O Cavalinho Vermelho" é uma pequena obra-prima, e seus contos longos, como "Ratos e Homens" e "A Pérola", são obras-primas desse gênero, a novela, que parece ter sido inventado pelos escritores americanos, de Henry James, com A Volta do Parafuso, a Hemingway, com O Velho e o Mar.&lt;br /&gt;Mas vim aqui falar do conto. Toda intromissão de outros gêneros deve ser considerada uma digressão. E a digressão nunca deve ser considerada uma agressão. Como diz Laurence Sterne, é o sol que brilha sobre a conversa. Também, diriam vocês, sobre meu monólogo. Outro escritor contemporâneo desses autores artistas foi um jornalista que era um contista nato: o risonho e frágil Ring Lardner, que influenciou todos os mestres do humor americano que o sucederam. Lardner, embarcado numa missão impossível - criar o conto de humor absurdo -, se autodestruiu com o álcool.&lt;br /&gt;Outro escritor agora esquecido, Erskine Caldwell, que já foi considerado o melhor contista do Sul selvagem, sabia mesclar o drama rural com uma sexualidade que, na época, era franca e atrevida, mas divertida. Agora, perto do que se vê no cinema, seus contos parecem se passar num convento de freiras que fumam. Lardner, contudo, teve colegas de mérito, como James Thurber, Robert Benchley e Dorothy Parker, que apostavam tudo no humor.&lt;br /&gt; Ao mesmo tempo, outros de seus colegas da revista "New Yorker" fiavam, mas não confiavam no esquivo amor - que muitas vezes se escrevia ódio; outras, tédio. Talvez o maior mestre entre eles tenha sido John O'Hara, que fez dos diálogos aprendidos de Hemingway uma espécie de sábia sarabanda em que tudo se fiava à conversa, para revelar, mas muitas vezes ocultar, os conversantes, conversos de uma religião atéia.&lt;br /&gt;Desde então não houve nenhum contista americano tão influente e tão lido - se excluirmos Raymond Carver. Ambos, O'Hara e Carver, são, à sua maneira, epígonos de Hemingway. Há outro grande contista contemporâneo que não vem da tradição americana, que não é americano, mas cria sua própria tradição na América, embora sua arte singular não tenha seguidores. Além de seus grandes romances, escreveu contos perfeitos que, curiosamente, foram quase todos publicados pela primeira vez na revista "New Yorker". Seu nome, claro, é Vladimir Nabokov. Acabaram de sair seus contos completos, e entre eles há pelo menos meia dúzia de obras-primas do gênero.&lt;br /&gt;Se Os Contos de Canterbury não tiveram continuadores (a não ser, é claro, no uso do inglês: Chaucer tem na literatura inglesa o mesmo papel crucial que Dante na italiana), é talvez porque os ingleses do século 16 e 17 não sabiam ler, embora soubessem, sim, ouvir e apreciar a música das palavras, que vinha de poetas dramáticos como Marlowe e Shakespeare e Ben Jonson. Todos, sobretudo Jonson e Shakespeare, grandes contistas. Algo parecido ocorreu na Espanha, onde se preferiu o romance picaresco e a comédia ao conto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-4359171030438396167?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/4359171030438396167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=4359171030438396167&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4359171030438396167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4359171030438396167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2009/01/uma-histria-do-conto-parte-8.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 8'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-7136119238151877028</id><published>2008-12-01T06:04:00.000-08:00</published><updated>2008-12-01T06:16:00.244-08:00</updated><title type='text'>PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE DO RECIFE</title><content type='html'>RESULTADO DO CONCURSO PRÊMIOS LITERÁRIOS CIDADE DO RECIFE 2008&lt;br /&gt;SECRETARIA DE CULTURACONSELHO MUNICIPAL DE POLITICA CULTURAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RESULTADO DO CONCURSO PRÊMIOS LITERÁRIOS CIDADE DO RECIFE 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Comissão de Organização dos Concursos Literários e Afins, constituída pela Portaria n°1018/2008, da Secretária de Cultura, publicada no Diário Oficial do Município do dia 08 de abril de 2008, comunica para efeitos legais e a todos os interessados, os vencedores do Concurso Prêmio Literário Cidade do Recife - 2008; no Prêmio Elpídio Câmara Categoria Teatro, obra vencedora "Passos de Ontem" inscrita sob pseudônimo de Dídia de autoria de Luiz Carlos Ladeia, e menção honrosa para a obra: "Presepada - Uma Farsa Nordestina" inscrita sob pseudônimo de Roco, de autoria Rogério Rangel Costa. No Prêmio Jordão Emerenciano Categoria Ensaio, obra vencedora "Maracatu Nação: Festa na Cidade" inscrita sob pseudônimo Paulino Barboza, de autoria de Paola Verri de Santana, e menção honrosa para a obra: "Sonho de Nabucodonosor: Ensaio sobre o Estado Novo em Pernambuco (1937 - 1942)", inscrita sob pseudônimo de Heródoto da Silva, de autoria de José Maria Gomes de Souza Neto. No Prêmio Eugênio Coimbra Junior categoria Poesia, a obra vencedora "Onde a Minha Rolleiflex?" inscrito sob o pseudônimo Almira de autoria de Márcia de Souza Leão Maia e menção honrosa para as obras: "As Plantas Crescem Latindo" inscritos sob pseudônimo Hans Standen, de autoria de Helder Herick Cavalcanti Soares; "Circunavegasons" sob pseudônimo Maracatubeat, de autoria de José Rocha de Albuquerque Filho. &lt;span style="color:#ff0000;"&gt;No Prêmio Lucilo Varejão categoria Ficção a obra vencedora "Peccata Mundi" inscrito sob pseudônimo de Luiz Nazar, de autoria Geraldo Maciel de Araújo&lt;/span&gt; e menção honrosa para as obras: "Fronteiras de Chumbo" inscritos sob pseudônimo Tibério Jordão, de autoria de Admaldo Matos de Assis, "Um detalhe em H" inscrito sob pseudônimo de Martinho, de autoria de Fernando de Mendonça; "Coração de Pedra" inscrito sob pseudônimo de Cristiano Deveras, de autoria de Cristiano Marcos Pires Neto.&lt;br /&gt;Recife, 27 de novembro de 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria do Céu Cezar&lt;br /&gt;Presidente&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-7136119238151877028?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/7136119238151877028/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=7136119238151877028&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7136119238151877028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7136119238151877028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/12/prmio-literrio-cidade-do-recife.html' title='PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE DO RECIFE'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-8052680566792067486</id><published>2008-11-25T16:05:00.000-08:00</published><updated>2008-11-25T16:07:06.096-08:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 7</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSyTGpGMjZI/AAAAAAAAADk/4eMStsGqanY/s1600-h/CABRERA+5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5272751006064348562" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 89px; CURSOR: hand; HEIGHT: 127px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSyTGpGMjZI/AAAAAAAAADk/4eMStsGqanY/s320/CABRERA+5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 7&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faulkner, como Fitzgerald, também foi alcoólatra e, como Fitzgerald, também foi a Hollywood e serviu como tarefeiro de ouro (ou dourado), especialmente para o diretor Howard Hawks. Mais esperto ou mais duro de domar, Faulkner ia a Hollywood, mas, assim que recebia seu dinheiro, voltava correndo para Oxford. Não a universidade inglesa, mas o pobre povoado do Mississippi onde ele nasceu e morreu, no mais profundo e racista Sul. Ao contrário de Fitzgerald e Hemingway, Faulkner era um reacionário público e um liberal privado. Dessas tensões são feitos não apenas seus romances mas os muitos contos que ele escreveu.&lt;br /&gt;Alguns de seus romances, como Palmeiras Selvagens, cujo belo título acaba de ser surrupiado e estropiado pelo diretor Oliver Stone, e Desça, Moisés, são feitos de contos mais ou menos longos, entre os quais algumas obras-primas como "O Urso". Outras de suas narrações breves, como "A Rose for Emily" e "Barn Burning", constam de todas as antologias e integraram a seleção feita pelo próprio Faulkner em suas Selected Stories. William Faulkner chegou a publicar um livro de contos detetivescos. Chama-se Knight's Gambit, e seu fio condutor é uma atividade que ninguém associaria ao narrador de "Enquanto Agonizo" e "O Som e a Fúria": o xadrez.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-8052680566792067486?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/8052680566792067486/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=8052680566792067486&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8052680566792067486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8052680566792067486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/11/uma-histria-do-conto-parte-7.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO - PARTE 7'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSyTGpGMjZI/AAAAAAAAADk/4eMStsGqanY/s72-c/CABRERA+5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-4067445275115106293</id><published>2008-11-17T04:39:00.000-08:00</published><updated>2008-11-18T06:32:22.181-08:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSLQHlk4cyI/AAAAAAAAADc/R-kVpLA2HFM/s1600-h/telefone.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5270003342741369634" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 124px; CURSOR: hand; HEIGHT: 99px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSLQHlk4cyI/AAAAAAAAADc/R-kVpLA2HFM/s320/telefone.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSFngeR8L9I/AAAAAAAAADU/FTQpYNi68l0/s1600-h/futebol.bmp"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O TELEFONEMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô! É do CRV?&lt;br /&gt;– Aqui é o Centro de Resgate da Vida, vinte e quatro horas no ar para oferecer apoio e divulgar o amor à vida... Qual é o seu problema?&lt;br /&gt;– ... Eu...&lt;br /&gt;– Se for desânimo tecle 1...&lt;br /&gt;– Eu quero me suicidar, mas não escolhi a forma...&lt;br /&gt;– Se for desilusão amorosa, tecle o 2...&lt;br /&gt;– Não, eu quero acabar com minha vida!&lt;br /&gt;– Se for problema financeiro tecle 3...&lt;br /&gt;– ...E quero saber qual a forma menos dolorosa...&lt;br /&gt;– Se for angústia por ter sido traído, tecle 4...&lt;br /&gt;– ... Pode ser veneno?&lt;br /&gt;– Se for separação litigiosa tecle o 5...&lt;br /&gt;– Cianureto... Como adquiro cianureto?&lt;br /&gt;– Se for depressão tecle o 6.&lt;br /&gt;– ... Mas também pode ser tiro... Dói muito?&lt;br /&gt;– Se for brincadeira de quem não tem o que fazer tecle o 7&lt;br /&gt;– ... Ou enforcamento.&lt;br /&gt;– Se tiver dúvida do que realmente você sente tecle o 8...&lt;br /&gt;– Acho que vou pular de um edifício...&lt;br /&gt;– Se quer voltar ao menu principal, tecle o 9... E obrigado. O CRV agradece o seu telefonema, esperando que este seja o último.&lt;br /&gt;– Se realmente você quer morrer, tecle o 0. É o IML... Ou aguarde a telefonista.&lt;br /&gt;– Alô? Maria, telefonista do CRV, às suas ordens!&lt;br /&gt;– Maria? Maria eu quero morrer! Suicídio!&lt;br /&gt;– Em que posso ajudar?&lt;br /&gt;– Quero achar o melhor jeito, o menos doloroso!&lt;br /&gt;– Todos doem muito.&lt;br /&gt;– ...Tiro na cabeça!&lt;br /&gt;– Patético! Quer chamar a atenção. Vai sujar o tapete da casa!&lt;br /&gt;– ... Me jogar de um edifício!&lt;br /&gt;– Espetacular, mas pode ferir alguém na queda, amassar carros e perturbar a ordem pública!&lt;br /&gt;– Enforcamento!&lt;br /&gt;– Você vai ficar roxo! É horrível! E a língua de fora? Você já pensou que vão tirar fotos suas?&lt;br /&gt;– Cianureto... Posso tomar cianureto!&lt;br /&gt;– Dói demais! Depois, não é fácil encontrar. Isso é coisa de nazista! Use coisa mais democrática, pelo menos!&lt;br /&gt;– Também posso me jogar diante de um automóvel...&lt;br /&gt;– Sem saber se o carro tem seguro? E o transtorno que vai causar ao dono do veiculo?&lt;br /&gt;– Sendo assim, como é que eu faço pra morrer?&lt;br /&gt;– Tenha paciência, espere a morte. Ela não falha. E você somente vai encher o saco de sua família por mais algum tempo. Tenha uma boa noite!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(De &lt;em&gt;Os Colecionadores&lt;/em&gt;, inédito)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-4067445275115106293?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/4067445275115106293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=4067445275115106293&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4067445275115106293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/4067445275115106293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/11/conto_17.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SSLQHlk4cyI/AAAAAAAAADc/R-kVpLA2HFM/s72-c/telefone.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-422040947992877917</id><published>2008-11-02T13:31:00.000-08:00</published><updated>2008-11-03T05:35:47.864-08:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000099;"&gt;Amaro e Dulce&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor de Dulce e Amaro era exemplar. Tão exemplar que parecia nem existir. Era a atração magnética dos nomes ou a aparente indiferença dos sólidos convívios? Sem procurarem respostas para tais perguntas, afastavam com arte os espinhos da vereda da convivência, aparavam as arestas dos mal entendidos, interceptavam as flechas frias da inveja em pleno vôo, pisavam na cabeça da serpente sibilante da maledicência.&lt;br /&gt;Era assim que viviam Amaro e Dulce.&lt;br /&gt;Desconheciam a extensão pública das carícias, da mesma forma que a submissão costumeira de um se curvando à grosseira autoridade do outro. Eram iguais.&lt;br /&gt;Quando se olharam reconheceram-se porca e parafuso; casulo e crisálida; engrenagens.&lt;br /&gt;Eles não tinham filhos, logo ali onde filho era a única posse que não distinguia ninguém. Mau olhado contra a harmonia ou um instante de amnésia do destino? Isto parece que os aproximava mais, apesar do zumbido sussurrado nas alcovas, dos risos enviesados nas calçadas ou das insinuações flutuantes no ar. Mas quem sabe os segredos da reclusão dos amores de cada qual? Quem sabe as formas, as preferências, a partitura dos gemidos, a postura da lassidão e do repouso, senão quem se deleita em tais intimidades? E quem pode discernir a vontade de Deus ou da natureza no cipoal de coisas e significados que estão por acontecer? Quem pretende agarrar com o saber os infinitos mistérios que correm por esses túneis sinuosos do corpo, onde convivem mistérios, coincidências e probabilidades?&lt;br /&gt;O que é saber viver? Cultivar amor ou camaradagem no deserto da ignorância exige muito. Requer muitas maciezas, trejeitos, renúncia e simulação de cegueira. Então, um não via o disfarçado olhar do outro - inocência ou gula - passear, planando, sobre os contornos das mocinhas de aflorantes peitos e púbis rarefeito?&lt;br /&gt;E o outro não via o mal disfarçado prazer de um ao abarcar com os olhos as protuberâncias incontidas dos rapazinhos de buço ralo e voz dissonante? E não deixavam a névoa embaciante da compreensão envolver essas fraquezas entrevistas?&lt;br /&gt;O que é viver então? Trabalho, compreensão e alegria.&lt;br /&gt;Ordenhar água limpa do úbere seco da natureza, entender que esse emaranhado de sangue, fibras, nervos e calafrios nos faz estranhos a nós mesmos, quanto mais a outros fora de nós! E trabalhar a alegria como uma argamassa, como uma sublime caliça nascida de algum lugar dentro de nós, como um vômito ou um pensamento, para colar os cacos da aridez das coisas, do estranhamento das pessoas e acalmar o redemoinho da existência.&lt;br /&gt;Talvez pensando assim, construíram um lar de calmaria. Suor e sela noite e dia; rebanho e pasto, além de toda a lida decorrente: troca, transporte, abate, ferro e fogo: um. Fogo e arte, alecrim e manjericão nos acepipes; fartura e cheiro sobre a mesa; espermacete sobre o linho, vincos afiados com ternura: o outro.&lt;br /&gt;A força e a destreza de um complementavam o delicado e o sutil do outro. E era assim porque para se viver, um só não pode tudo, há que dividir as lidas, os afazeres, tocando a cada um aquilo mais de acordo com o gosto ou a natureza, a aptidão e o desejo. O comum, o coletivo, fica sendo a alegria, o divertimento, os planos, cama e lençóis.&lt;br /&gt;Os olhos de um seguiam o outro na dança dos currais: boi e brida, pata e laço. Músculos retesos dominando a desordenada brutalidade dos bovinos. Com que sincero gosto o outro elogiava a surpresa permanente da fartura trivial, o festim rotineiro da mesa bem disposta. E nisto a relação de ambos se perpetuava.&lt;br /&gt;Não havia viagem sem presentes no retorno: calçados macios, tecidos finos e de motivos coloridos; perfumes, revistas de moda e decoração. Não havia retorno sem banquete, música e bela mesa. Fartura e guloseimas; forno e fogão.&lt;br /&gt;Nas despedidas, um montado, armadura floreada em couro sobre couro, forte, rijo, domando a irrequieta pressa do alazão com punho firme; cabelo em cachos, batom, espora e brincos: Dulce. O outro do terraço, franzino e colorido, aspergindo adeuses, já impaciente, antevendo os presentes do retorno: Amaro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000099;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000099;"&gt;(De &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Aquelas criaturas tão estranhas&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;, Rio Fundo, 1995.)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-422040947992877917?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/422040947992877917/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=422040947992877917&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/422040947992877917'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/422040947992877917'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/11/conto.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-1083909410009707437</id><published>2008-10-26T05:42:00.000-07:00</published><updated>2008-10-26T05:45:52.169-07:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 6</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SQRmchFt4KI/AAAAAAAAADM/kx7NQ_O8rA8/s1600-h/CABRERA+INFANTE+3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5261442904780300450" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 74px; CURSOR: hand; HEIGHT: 122px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SQRmchFt4KI/AAAAAAAAADM/kx7NQ_O8rA8/s320/CABRERA+INFANTE+3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 6&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hemingway e Tarantino&lt;br /&gt;O conto americano do século 20 nada deve a Maupassant, mas sim a Tchecov. Seu renascimento lembra mais Twain do que Poe e começou, como ocorrera com Twain, com uma literatura regional que pulava as fronteiras do Meio-Oeste para chegar a Nova York e daí ao mundo. Seu pioneiro se chamava Sherwood Anderson, patrocinador de William Faulkner e modelo de Ernest Hemingway. Seu livro Winesburg, Ohio (conhecido na América do Sul e em Cuba como Las Novelas de lo Grotesco, embora não sejam romances, e sim contos, e essa história de grotesco seja gratuita, mas não deixa de ser um título com gancho) continha uma nova visão do mundo adolescente num lugarejo de Ohio, e sua linguagem, coisa bem importante, era entre ingênua e sábia.&lt;br /&gt;Faulkner, que graças a Anderson publicou seu primeiro romance, é famoso como romancista, ou melhor, como um poeta falastrão, mas escreveu meia dúzia de contos memoráveis. Hemingway, por sua vez, é mais contista do que romancista: um artista que renovou a prosa moderna americana com seus diálogos sofisticados para conversar com primitivos, que são de uma mestria ainda atual. Seu conto "Os Assassinos", em que apenas com o diálogo se oferece uma amostra do mal sob a forma de uma conversa aparentemente casual, revela uma violência latente que nunca se faz patente.&lt;br /&gt;Desse breve conto partiu a renovação do romance policial com Hammett e Chandler, que escreveram primeiro contos de mentira e de morte. Um filme recente, "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, com seus diálogos recorrentes, intermináveis e perigosos, não teria lugar se antes não tivesse existido "The Killers". Seu título mesmo, direto e brutal, serviu ao cinema desde que este começou a falar: diálogos ditos com o canto da boca, que é como se lêem, sem mexer os lábios, as conversas de Hemingway.&lt;br /&gt;Dos grandes escritores americanos dos anos 20, Scott Fitzgerald é o único que frequentou a universidade, mas nunca chegou a se formar. Todos, portanto, foram autodidatas. Alguns, como John Steinbeck e William Faulkner, exerceram as mais variadas atividades, quase sempre manuais. Ernest Hemingway se dedicou ao jornalismo -que é quase um trabalho manual. O único instrumento que se tem de aprender a utilizar é a máquina de escrever, e Hemingway sempre foi um mau datilógrafo. Todos eles eram contistas respeitáveis, mas, à exceção de Hemingway, o cultivo do romance ocultou essa qualidade.&lt;br /&gt;O exemplo mais evidente é o de Fitzgerald. Todos vocês já leram ou sabem que se deve ler O Grande Gatsby, festejado pela crítica, favorecido pelo cinema em produções coloridas e em preto-e-branco, com Alan Ladd, o perdedor nato, e com Robert Redford, numa versão chocha de Alan Ladd. Alguns conhecem seu conto "O Diamante do Tamanho do Ritz", mas poucos sabem que faz parte de seu livro Contos da Era do Jazz, e ninguém sabe nada de suas coletâneas All the Sad Young Men e Taps at Reveille. Depois de sua morte, foram publicados dois volumes de contos, Afternoon of an Author e The Pat Hobby Stories, uma compilação surpreendentemente leve para um tema dolorosamente autobiográfico: as aventuras e desventuras de um escritor de aluguel em Hollywood, onde o autor morreu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-1083909410009707437?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/1083909410009707437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=1083909410009707437&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/1083909410009707437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/1083909410009707437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/10/uma-histria-do-conto-parte-6.html' title='UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 6'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SQRmchFt4KI/AAAAAAAAADM/kx7NQ_O8rA8/s72-c/CABRERA+INFANTE+3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-8217026902125032443</id><published>2008-10-17T14:18:00.000-07:00</published><updated>2008-10-17T14:25:59.772-07:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SPkC0hXfhuI/AAAAAAAAADE/DHT41VP3NUU/s1600-h/caneta_pena.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258237141265123042" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SPkC0hXfhuI/AAAAAAAAADE/DHT41VP3NUU/s320/caneta_pena.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;UM ESCRITOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM ESCRITOR AMIGO MEU acaba de lançar um livro. É um livro original, tão diferente e revolucionário que ele não sabe como classificá-lo. A síntese perfeita entre o signo e seu oposto, entre a palavra e o silêncio. Um livro revolucionário. No lançamento havia oito pessoas. O namorado do autor, dois amigos ligados às letras profundas e radicais, uma tia idosa que o sustenta, uma irmã, um amigo do namorado, um transeunte e eu. Oito. Ele completava os nove e estava feliz.&lt;br /&gt;Um dos amigos das letras radicais disse algumas palavras, durante uma hora, e eu tive que falar do livro, relembrar algumas passagens da nossa adolescência, quando estudamos juntos, de nossa amizade e afinidades literárias. A tia chorou uns quatro lenços de cambraia, a irmã somente três; o namorado, um pouco afastado, olhava embevecido e tímido para o maior escritor do mundo. São assim os lançamentos. Afinal é a coroação de dias e noites, noites e dias de suor e labuta, de labuta e suor, com pequenos intervalos para uma olhada no espelho e busca de inspiração.&lt;br /&gt;Ele demorou exatos dez anos para construir sua obra. Dez anos. Noites de labuta e canseira. De insônia e labuta. Pelo menos foi o que ele afirmou na hora dos agradecimentos. Dois anos de hipérboles, metáforas, paráfrases e aliterações; não sei quantos mais de reestruturação, reescritura e acréscimos; e o restante de condensação.&lt;br /&gt;Ao fim do segundo ano tinha 510 páginas escritas, 251.620 palavras, 1.647.760 caracteres com espaço, 3920 parágrafos e 22.570 linhas. Um castelo de palavras, produto da primeira fase, a de aglutinação.&lt;br /&gt;Os dois últimos anos ele os gastou polindo, cortando, buscando a essência. Quando fez uma primeira leitura, retirou os erros mais grosseiros, as repetições, por si mesmas desnecessárias, e os parágrafos obscuros, economizou 56 páginas; na segunda leitura, cuidou de retirar o excesso de adjetivos - os manuais falam dos tais adjetivos e de seus malefícios para o estilo -, e lá se foram 32 páginas; com o excesso de quês implicantes e repetitivos cortou 16 páginas. Ao fim dessa primeira passada, estava com 407 páginas e uma ligeira impressão de que seu romance tinha tudo para ser uma grande obra.&lt;br /&gt;Na terceira leitura, notou que ainda havia muita gordura, muita coisa que não contribuía para a solidez da obra e resolveu cortar. Aplicaria algo que leu de um determinado crítico de literatura que dizia: se você notar que retirando um capítulo ou parágrafo ele não faz falta, corte. É porque realmente ele não serve para nada. Começou com os capítulos. Dos trinta e oito, cortou quatorze. Os vinte e quatro restantes, após a poda dos parágrafos mal ajambrados, obscuros, desnecessários ou ilegíveis redundaram em 231 páginas.&lt;br /&gt;Semanas depois, uma leitura sobre Graciliano e sua febre pela concisão, somada com outra sobre a poesia de João Cabral, fez com que devastasse dez capítulos, que refundidos resultaram em oito e 126 páginas. Dessas 126 páginas, retirou todos os personagens, deixando só o principal e com isso seu texto ficou reduzido a 45 páginas. Podando as páginas onde havia algum tipo de ação do personagem, restaram-lhe 19 páginas. Com um texto tão condensado, não havia necessidade de divisão em capítulos, o que economizou três páginas.&lt;br /&gt;Na última leitura, resolveu deixar somente os monólogos interiores que tivessem relação direta com o suicídio – tema do livro -, o que lhe custou sete páginas. Cortou, depois, oito delas por não terem um cunho filosófico mais profundo e se viu frente a frente com meia página altamente condensada, profundamente densa.&lt;br /&gt;Mas, pensando bem, nada seria mais profundo do que o ato do seu personagem. E trocou aquele parágrafo profundo por esta frase banal, mas tão representativa: Ele iria se matar. E tal concisão levou-o à idéia genial: A morte é o absoluto. O que é uma frase para representá-la? E riscou a frase dando origem àquela sua obra de tantos anos. Pelo menos foi o que ele disse na hora dos agradecimentos.&lt;br /&gt;A crítica não tomou conhecimento. Os resenhistas passaram ao largo, e as más línguas acharam outras coisas de que ocupar.&lt;br /&gt;Vendeu oito exemplares no lançamento, embriagou-se e começou a se preparar para escrever o próximo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Geraldo Maciel&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;(Do livro de contos inédito &lt;em&gt;Os Colecionadores&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-8217026902125032443?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/8217026902125032443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=8217026902125032443&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8217026902125032443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8217026902125032443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/10/conto_17.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SPkC0hXfhuI/AAAAAAAAADE/DHT41VP3NUU/s72-c/caneta_pena.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-2781271165947827364</id><published>2008-10-09T14:25:00.000-07:00</published><updated>2008-10-09T14:30:20.641-07:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000066;"&gt;O CONCERTISTA E A CONCERTINA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Maria Valéria Rezende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            O concerto não era um espetáculo, era uma despedida. O cenário era aquela rua longa e deserta, com um vento frio escoando entre as casas, removendo folhas secas e papéis, como se fantasmas varressem aquele anfiteatro onde, afastadas, algumas árvores espreitavam, gatos de pálpebras semicerradas cochilavam nas biqueiras, e o resto do universo - uma grande abóbada azul-escuro embebida de estrelas, invisíveis planetas e difusas nebulosas -, logo acima dos telhados, era testemunha indiferente do que acontecia aqui em baixo.&lt;br /&gt;            As casas eram antigas, altas, como se tivessem sido espremidas umas contra as outras por uma força desconhecida. Naquela noite, o relógio quase não andou e o frio da noite fez as pessoas deitarem cedo.&lt;br /&gt;Apesar disso, mesmo sendo quieto o lugar e silenciosas as pessoas, o material de que é feita a vida borbulhava sem parar. Uma moça jovem deitou com o namorado na sala de sua casa enquanto sua mãe cochilava e seu pai olhava as estrelas no quintal; alguns maridos viraram de lado e dormiram, enquanto outros tentaram povoar o mundo como manda a lei; alguém roubou uma galinha depois da meia noite; mais adiante alguém parou de contar histórias de almas e lobisomens; um outro sentiu uma pontada no peito, um seu compadre teve disenteria; há quatro moças menstruadas, seis mulheres grávidas e dois ou três moleques se masturbando em suas redes; alguém faz um chá, um e outro tossem; um dorme sonhando com suas dívidas, outro não dorme pensando no que não recebe; um dorme por ter comido em demasia, muitos se ressentem da barriga vazia; uma acalenta e dá o peito, outro ronca, mas não dorme direito. Um bêbado flutua no sereno e os cachorros incomodam suas pulgas.&lt;br /&gt;E por fim, uma nuvem úmida, perfumada e ondulante, vai se espalhando, ocupando a rua, preenchendo as casas, acariciando os ouvidos, acordando os dormentes, despertando os que cochilam e envolvendo os acordados. A moça jovem que deitou com o namorado sente o segundo tremor pelo seu corpo; sua mãe que cochilava desperta do torpor e seu pai continuou olhando as estrelas, mas agora sem prestar atenção a elas; os maridos que dormiam acordaram, e os que tentavam povoar o mundo, tentaram novamente; alguém abandonou a galinha que roubara depois da meia noite; aquele que contava histórias emudeceu; as pontadas no peito daquele desapareceram, estancou a disenteria de seu compadre; as quatro moças tiveram seu fluxo interrompido e a essa altura as seis mulheres grávidas já somam sete, enquanto os três moleques ainda se masturbam em suas redes; alguém fez e tomou um chá, um e outro pararam de tossir; um acorda e esquece suas dívidas, outro não dorme e esquece os créditos um momento; um dorme por ter comido em demasia, muitos se ressentem da barriga vazia; uma acalenta, dá o peito e ouve, outro para de roncar e escuta. Um bêbado continua flutuando no sereno e os cachorros deixam em paz as suas pulgas.&lt;br /&gt;            Era a música. O concerto. O concertista tocava a czarda de Monti que ninguém ali conhecia, a não ser ele, e que uma vez aprendida, em um lugar distante e como se fosse um segredo, dormia nas dobras da sua concertina, no interior do fole, como uma coisa sagrada. No primeiro acorde, o vento que andava célere, deu uma meia volta sobre as casas e retornou mais suave, como se quisesse ouvir a melodia que saía da concertina; o vento frio virou aragem, e a platéia – os homens, os bichos, as pedras, as árvores, os ares, os fantasmas e o infinito -, respirou com calma, dando lugar ao som que preenchia aquela parte da abóbada sobre o mundo.&lt;br /&gt;            E aquela imersão maravilhosa que todos sentiam vinha do jorro saído daquela caixa de artifícios, a pequena maleta de sons, uma concertina de oito baixos, de fole prateado, com suas fileiras de botões emparelhados como em uma cartela de comprimidos. Aquela caixa, sonora matéria de sonho e desejo do concertista, era como uma mulher amada. Fora descoberta por ele em uma vitrine de uma loja de ferramentas, recebida por conta de um débito insolvível, e desde então achou canto cativo no coração do enamorado concertista.&lt;br /&gt;            Quanto custa? Uma montanha de dias de trabalho, outra montanha de noites sem dormir, afora o ciúme de ser traído e abandonado, desprezado por outro de fortuna, fortuna que ele como artista não ousava possuir. Pecúlio? Nenhum! Que pode ter um artista solteiro, amante de saraus, bebida, certas diversões e nenhum emprego ou bem de família? Uma cama, um colchão de palha, uma mala e mais nada que possa se transformar em moeda sonante, a única música para o dono do armazém e atual dono da bela concertina? Por outro lado, que pode um artista sem o instrumento da sua arte, vivendo ao sabor dos instrumentos que a bondade alheia ou o coleguismo dos outros possa lhe proporcionar? E como sofre um artista com a asma dos foles resfolegantes e remendados que o desleixo de artistas menores não repara; é triste como o choro de um velho o som desafinado de muitos instrumentos que tem tocado, nada é pior que o ruído cavo que se cria quando se preme um botão e do instrumento só sai o bruto ar, o esgar do fole, como se aquela caixinha, delicada como uma criança, estivesse tísica.&lt;br /&gt;            E durante meses que duraram anos a pequena concertina ficou exposta aos olhares indiferentes da maioria e aos ávidos olhos do apaixonado concertista que toda semana lhe fazia uma visita. E numa delas, entrou na loja, foi até o balcão onde despachava o comerciante e lhe perguntou: Posso experimentar? Fazer um teste? Podia. Colocou-a no colo, abriu o fole lentamente, ela respirava como uma criança. Premiu os botões brancos, um a um, baixinho, ouvindo a afinação e gozando a sonoridade. Pediu resposta dos baixos, e ouviu aquele ronronar macio, acariciante e puro.&lt;br /&gt;            Sabe tocar? Sei. E por que não toca? Jurei só tocar em instrumento meu. E lhe veio a tentação de fazer um solo, uma improvisação de Pedacinho do céu ou de Escadaria, quebrando a jura, mas aquietou-se. Só toco em coisa minha.  E quanto custa? E a resposta cavou um abismo entre ele e a concertina e lhe doeu como se fosse a recusa da mão da mulher amada.  E é à vista? À vista é. E o concertista voltou para casa com o coração em pedaços e pensando coisa ruim. Comprar a prazo! Ele não vende. Roubar a concertina! Fazer de conta que ela era uma moça, sua noiva, e roubá-la, fugirem juntos como se noivos fossem. Depois, passados os alvoroços, enviaria emissários ao comerciante e proporia um trato, pagamento parcelado, já que com ela ele podia pagar as prestações. Impossível? Muitos casamentos foram feitos assim e ninguém morreu ou foi para a cadeia por isso.&lt;br /&gt;            A concertina anoiteceu e não amanheceu. Fugiu com o concertista para lugar incerto e não sabido. O comerciante esbravejou como um pai enganado e fez registro na polícia. Suspeito? Não sei quem foi, mas desconfio de um que vivia namorando minha concertina e não tinha dinheiro para comprar. E à raiva espumosa do comerciante se seguiram as diligências preguiçosas do delegado, e o mundo abriu-se e fechou-se, e nada de a concertina e o concertista aparecerem.&lt;br /&gt;            E como se fosse um furto de noiva, de verdade, numa tarde achegou-se manso e cauteloso um emissário ao balcão do comerciante. E embaixador que era, investido das astúcias que essa profissão exige, destilando a maciez da voz e repelindo a brusquidão do gesto, numa convincente dialética tentou mostrar ao comerciante que o que ele achava preto, na verdade, era branco, que o que estava dentro, na verdade estava fora, que o que parecia ser escuro, se bem olhasse, era a claridade; e tanto parlamentou que o interlocutor terminou aceitando uma conversa mais pé-no-chão, bem pé-de-ouvido, e perguntando: o que é que você quer? Sabendo ele que se tratava do desaparecimento, do roubo ou do rapto de sua concertina e que aquilo parecia ser a única maneira de tirar o prejuízo, tão importante quanto salvar a honra de uma filha.&lt;br /&gt;            Aceitas as desculpas do ato subversor - tresvario de um artista apaixonado e pobre -, seria retirada a queixa da polícia e estabelecido um trato com o seqüestrador enamorado: teria trinta dias para pagar a concertina, sem que faltasse um tostão sequer; caso o trato não vingasse e a honra do compromisso fosse manchada, ele ficaria preso, junto com a concertina, mas se ousasse tirar dela qualquer som, a bela concertina seria destruída. Poderia haver castigo maior? Não havendo como dizer não, foi selado o pacto e o concertista riu, primeiro, quando pensou na alegria de ter sua concertina para sempre, e chorou, depois, quando pensou no que teria de fazer para transformar esses trinta dias numa eternidade.&lt;br /&gt;O concertista tocou na feira e lá lhe atiraram alguns trocados; tocou na missa e lá lhe deram uma parte da esmola das almas; tocou nos cabarés e as putas lhe mandaram parte da féria embrulhada como se fosse um charuto; tocou um batizado que lhe rendeu nada, quase; e não houve casamentos nestes dias; tocou no enterro de um morto, mas este era seu amigo e a amigo não se cobram certos favores. E mais não tocou porque não havia onde, e contando o pecúlio sentiu um calafrio.&lt;br /&gt;Vendeu, então, a cama, o colchão e os lençóis, vendeu a mala e um par de sapatos; empenhou um escapulário e uma parelha de roupas. E contabilizou metade e mais um tanto daquilo que devia pelo trato. Pensou em vender seu suor, mas não achou quem dele se engraçasse. Quis vender a roupa do corpo, mas seria preso pela lei. Só se vendesse a sua alma, mas aqui ninguém compra almas, muito menos a de artistas como ele, que tem pouco peso e pouquíssimas virtudes. Apelou para o jogo do bicho, mas a sorte surrupiou alguns trocados do seu incompleto patrimônio. E lhe restaram os suores frios, o desespero galopante e um impiedoso calendário a lhe mastigar o tempo que restava.&lt;br /&gt;E porque o calendário engoliu o tempo com voraz apetite, chegou aquele dia, ou melhor, aquela noite, antecedente do fatídico dia em que o concertista cumpriria seu trato e arrebataria de vez a sua concertina. E era por isso que no meio da rua, sentado em um tamborete, com a concertina ao colo, o concertista se preparava para a despedida. Nunca mais tocaria sua concertina e, já que não poderia mais tocá-la, nunca mais tocaria concertina alguma. O dinheiro estava incompleto, numa sacola, aos seus pés. E no seu colo a concertina, de onde saía czardas, a música que aprendera em segredo e que o fazia flutuar.&lt;br /&gt;No início da música os sonhos se recolheram, os roncos silenciaram, as luzes se acenderam, as cortinas se afastaram, as portas de abriram, e homens mulheres e crianças, meio sonâmbulos e sorridentes, caminharam para o meio da rua onde um concerto reunia a concertina e o concertista. Só a luz da casa do comerciante ainda dormia.&lt;br /&gt;Os moradores, como se agissem de forma combinada, depositavam, um a um, suas últimas moedas na sacola do concertista, enquanto a luz da casa do comerciante acorda. O concertista gela e a platéia volta-se para a luz. Alguém pega o saco e conta as moedas. O comerciante abre a porta e sai à rua. Aproxima-se da pequena platéia. Alguém lhe estende a sacola. O comerciante pega a sacola e lentamente conta o dinheiro.&lt;br /&gt;– Falta uma moeda! Diz.&lt;br /&gt;            – Estes são os últimos tostões de todos. Nem mais a caixa das almas tem.&lt;br /&gt;O comerciante devolve a sacola. Quer a concertina. Quando o concertista começa a retirar os suspensórios do instrumento, o bêbado levanta, tira uma moeda do bolso, coloca dentro da sacola e lhe diz&lt;br /&gt;– Toque mais uma!&lt;br /&gt;Quando o dia amanhece, o vento frio acaricia o concertista que dorme sob uma marquise, agarrado à sua concertina. Ao seu lado, o bêbado continua flutuando no sereno e os cachorros não deixam em paz as suas pulgas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#000066;"&gt;(do livro &lt;em&gt;O Concertista e a Concertina&lt;/em&gt; - Editora Manufatura, 2005)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-2781271165947827364?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/2781271165947827364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=2781271165947827364&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2781271165947827364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2781271165947827364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/10/conto.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6768631655476846220</id><published>2008-10-09T14:23:00.000-07:00</published><updated>2008-10-09T14:24:33.313-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 5</title><content type='html'>UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 5&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se James Joyce tivesse morrido logo depois de publicar Dublinenses, ainda assim seria considerado um escritor notável e um grande contista. Traduzir é reescrever. Traduzindo Dublinenses, tive a oportunidade de encontrar os "tricks" e tiques de Joyce mas também seus magistrais contos originais e sombrios e sua escritura cômica.&lt;br /&gt;"The Dead" (que traduzi como "El Muerto") é uma obra-prima dolorosa e um dos grandes contos escritos em inglês, quase um romance, por seus personagens inesquecíveis e sua extensão. "The Dead" não é um precursor do Ulisses, e sim uma peça acabada em si mesma, de uma prosa milagrosamente extraordinária. Não se poderia deixar de falar de um dos escritores mais originais do século 20, Franz Kafka, inventor da fábula com moral teológica, ou seja, metafísica. Sua influência se faz sentir em muitos escritores judeus, como Isaac Bashevis Singer, ou genuinamente gentílicos como Milan Kundera, que o reclama para a literatura tcheca, embora Kafka tenha escrito em alemão e pertença à cultura talmúdica. Felizmente para nós, que não somos nem tchecos nem judeus nem alemães, Kafka pode ser lido com verdadeiro deleite literário.Um epígono de Kafka, judeu como Kafka, apareceu não na Tchecoslováquia, mas na Polônia: Bruno Schulz, contista. Seu "Lojas de Canela" é de uma originalidade delicada: uma visão da vida judia numa cidadezinha da Polônia que oscila entre a magia e um doce realismo. Schulz, não podemos esquecer, foi assassinado por um tenente da SS nazista, castigo tremendo apenas por estar parado numa esquina sem fazer nada. Ao contrário de Kafka, nunca nem sequer sonhou seu final. É que o totalitarismo é sempre inimigo da literatura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6768631655476846220?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6768631655476846220/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6768631655476846220&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6768631655476846220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6768631655476846220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/10/folhetim-5.html' title='FOLHETIM # 5'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-774371260732436146</id><published>2008-09-28T14:29:00.000-07:00</published><updated>2008-09-28T14:39:18.134-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 4</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SN_5bcbEptI/AAAAAAAAAC0/v3gUH5g_Nhg/s1600-h/CABRERA+4.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5251189940418815698" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SN_5bcbEptI/AAAAAAAAAC0/v3gUH5g_Nhg/s320/CABRERA+4.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 4&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#cc0000;"&gt;Kipling cultivou todas as modalidades do conto, do monólogo à conversa, sendo alguns de seus contos feitos inteiramente de digressões, como queria Sterne, mas também de invenções memoráveis. E muito antes que Conrad ou Somerset Maugham descobrissem o mundo exótico do Oriente. Com a diferença de que, para Kipling, nascido em Bombaim, aquilo era a vida vivida e vívida. A França não teve um Chaucer, mas teve um mestre do conto no século 18, tardio, mas nada lerdo em sua arte da ironia, exercida com uma inteligência incomum. Refiro-me a Voltaire, cuja obra-prima, Cândido, não é um romance, e sim uma fábula com uma moral em cada página. Os franceses tiveram de esperar todo o século 19 para que, afinal, surgisse um dos maiores contistas de todos os tempos, Guy de Maupassant, assombroso autor de sucessivas obras-primas do gênero. Maupassant teve Gustave Flaubert como mestre e Émile Zola como mentor. Mas nenhum dos dois, embora tanto Flaubert como Zola tenham escrito contos memoráveis, conseguiu superar o discípulo nascido para o conto. Sua influência foi enorme em toda parte e teve seguidores (se não verdadeiros plagiários) na Inglaterra, nos EUA e na Rússia.&lt;br /&gt;É na Rússia que Maupassant encontrará um rival extraordinário, Anton Tchecov, que começou contando anedotas e piadas na imprensa e acabou transpondo seus principais contos para o teatro, com uma arte inesperada. Tchecov, que podia reivindicar para si Nicolai Gogol (autor de "O Nariz" e "O Capote", entre outros contos), era um admirador de Tolstói, que escreveu contos como relatórios de guerra e foi contemporâneo de outro mestre cultivador da forma breve, Ivan Turgueniev. Mas a influência maior no autor de "A Dama do Cachorrinho" e "A Cigarra" é, evidentemente, Maupassant. De Tchecov derivam Górki e todos os contistas russos do início do século 20, que pareciam brotar da terra russa - até que chegou Stálin e, com seu cultivo forçado do realismo socialista, transformou a fértil literatura russa num deserto com tratores.&lt;br /&gt;Outro seguidor de Tchecov foi, na Inglaterra, Somerset Maugham, mestre do conto inglês e mundial. Foi, ainda é, um autor com uma popularidade que se estendeu aos palcos e às telas: várias obras-primas do cinema, como "A Carta" (do diretor William Wyler, de 1940), se baseiam em seus contos. Maugham, em seus contos exóticos, foi influenciado pelas narrações dos "mares do sul" de Conrad e, por sua vez, teve influência sobre outros contistas, evidente sobretudo nos contos urbanos de John Cheever e John Updike, típicos produtos da revista "The New Yorker".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-774371260732436146?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/774371260732436146/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=774371260732436146&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/774371260732436146'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/774371260732436146'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/09/folhetim-4.html' title='FOLHETIM # 4'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SN_5bcbEptI/AAAAAAAAAC0/v3gUH5g_Nhg/s72-c/CABRERA+4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-8261527923731593145</id><published>2008-09-25T17:48:00.000-07:00</published><updated>2008-09-25T17:53:29.137-07:00</updated><title type='text'>PROTOTEXTO # 3</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SNwybkdLFPI/AAAAAAAAACs/93EjjyET51M/s1600-h/Z.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5250126714831049970" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SNwybkdLFPI/AAAAAAAAACs/93EjjyET51M/s320/Z.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#003333;"&gt;ZÉ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nome é uma tatuagem sonora colada à pessoa ao nascer. É útil quando a presença não é possível e a ausência não é aceita. Quando é escolhido e registrado, deseja-se que ele distinga um inexpressivo indivíduo dos demais, agregue-lhe uma qualidade que o nomeado deva ter. Há nome longo, curto, seco, úmido, insípido, voluptuoso, comum ou raro. Há, contudo, os preferidos. Aqui, todos, ou quase todos, chamam-se José, quando não sua abreviatura, Zé, ou seu diminutivo, Zezinho, ou o seu contrário, Zezão, mas todos José. Além de uma homenagem ao pai do Cristo, este nome serve para marcar aqueles cujo destino é o mourejar de sol a sol, sem as devidas recompensas de bóia farta e sono reparador.&lt;br /&gt;Como todos se chamam José, José não distingue ninguém, daí surgirem os acrescentamentos: da Guia, de Ribamar, do Patrocínio, e tantos outros assim grifados para aqueles que fazem questão de ancestralidade e raízes; para os demais, há o comum trivial: Zé de Lica, Zé de Faustino, Zé de João de Otilia, e para os ciosos de sua linhagem, temos os Zé de Tereza de Zé de Joaquim, tendo-se sempre à mão e na lembrança que isto quer dizer, na verdade, José filho de Tereza, filha de José, filha de Joaquim, o mesmo valendo para qualquer outra seqüência de nomes que aparecem em pencas pelo mundo afora.&lt;br /&gt;No meio desses zés-ninguém, temos Josés muito famosos, sendo o caso de José Lins do Rego, o de José Américo de Almeida, José Condé, José de Alencar; os Josués, de Castro e Montelo – que tiveram seus nomes atrapalhados por um U intrometido que caiu ali entre o S e o E sem que ninguém tivesse pedido -, Ledo Ivo que sem que se saiba por que não usa o seu José; Jorge Amado, com quem aconteceu a mesma coisa acontecida aos Josués, só que seu caso as palavras eram duas consoantes e não uma vogal; João Cabral, que de tão econômico nas palavras, terminou surrupiando o Zé que ali deveria haver fazendo companhia ao João; Graciliano Ramos, esse parece que tirou o Zé pelo mesmo motivo de João Cabral e mais uma dose de ranzinzice; Gilberto Freire parece que tirou o Zé por puro esnobismo; Castro Alves, esse de nome Antônio chegou a assegurar mais de uma vez que seu nome deveria ser José e não Antônio; com Gonçalves Dias aconteceu a mesma coisa; Já Ariano Suassuna, que não tem Zé no nome, disse e redisse inúmeras vezes que não lhe desgostaria ter um Zé apragatado antes de seu nome atual, já tão famoso. Esses são os bem conhecidos entre tantos de menor nomeada. Até um dos nossos maiores cronistas e o nosso mais conhecido versejador chamam-se José, sendo um Gonzaga Rodrigues, o outro Limeira.&lt;br /&gt;Zé, metade das letras de José, um terço das letras de Joseph e Yussuf, um quarto das letras de Guiseppe. Apesar de maiores, nenhum desses nomes supera o nosso breve Zé. Quem não é José ou Zé, cobre o erro do padre na pia batismal, culpe a ignorância do escrevente do cartório ou veja se não há outro motivo a encobrir tal falta.&lt;br /&gt;Mesmo agora, com o rádio e a televisão, com os informes do mundo e o conhecimento das culturas de outros povos, apesar da invasão de nomes estrangeiros, tudo indica que não jogamos a nossa identidade na lata do lixo: estão aí os Andersons, os Cleivsons, os Gleidsons, de feição e influência bretã; os Ronnie Vons, os Schumachers, dos arianos adeptos; os Michel e os Platinis, nomes franceses; todo nomes estranhos, não nossos, mas que terminam soando familiares quando pronunciados com um José antes, isto sem falar na familiaridade conseguida se ao invés do José for usado o abreviado e sonoro Zé que, querendo ou não os detratores dessa invasão cultural e onomástica, não deixa de soar simpático e ecumênico, se é que tal palavra cabe aqui.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-8261527923731593145?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/8261527923731593145/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=8261527923731593145&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8261527923731593145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8261527923731593145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/09/prototexto-3.html' title='PROTOTEXTO # 3'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SNwybkdLFPI/AAAAAAAAACs/93EjjyET51M/s72-c/Z.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6636427912780928403</id><published>2008-09-10T06:47:00.000-07:00</published><updated>2008-09-10T06:50:54.276-07:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMfQkSfvWMI/AAAAAAAAACk/YFM3iqWNj5k/s1600-h/OLHO+MORANDI.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244389612955064514" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMfQkSfvWMI/AAAAAAAAACk/YFM3iqWNj5k/s320/OLHO+MORANDI.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#666600;"&gt;O OLHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geraldo Maciel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdi o olho direito em uma brincadeira com meu gato de estimação. Doeu um pouco, senti que as coisas, apesar de inteiras, me chegavam pela metade, e, afora a dor inicial, quando o globo ocular vazou como uma bexiga perfurada, não tive vontade de matar o gato. Perder o olho não era uma coisa grave.&lt;br /&gt;Depois que a ferida cicatrizou, após a retirada do curativo que evitava contaminação, fui à farmácia e comprei um olho, uma dessas maravilhas da farmacologia moderna.&lt;br /&gt;Em casa, destampei o vidro, suguei o líquido, quase uma pasta, e coloquei as quinze gotas recomendadas na cavidade ocular. Senti uma ardência inicial, já prevista e alertada na bula, e esperei cerca de um minuto sem fechar a pálpebra. Pronto: eu tinha um olho novo, um olho, cinza-esverdeado com raias amarelas.&lt;br /&gt;Por ironia do destino, engano da balconista ou ato falho meu, comprei, sem querer, um olho de gato. Notei depois, ao ler os detalhes impressos na caixa do remédio. Não me incomodei. Estava vendo bem. Dizem que o gato tem uma excelente visão, sendo extremamente apurada sua visão noturna; tem a desvantagem de não permitir uma acurada variação de cores, mas para quem é míope isso não ia fazer muita diferença.&lt;br /&gt;Dizem que os gatos guardam os raios da aurora para exibi-los à noite. Não senti nada de diferente, talvez porque esse novo olho ainda não havia visto uma aurora. Amanhã, quem sabe... Senti, no entanto, que meu campo de visão era mais amplo e que podia perceber qualquer movimento ao meu redor, por menor que fosse.&lt;br /&gt;Ninguém percebeu a mudança. Só o gato que, a princípio, olhou-me meio espantado, eriçou os pelos e exibiu seus dentes afiados como se me desafiasse. Eu também senti um arrepio, mas não cheguei a rosnar para ele. Senti, isso sim, certa ausência de privacidade, um sentimento de perda, coisa que só mais tarde pude confirmar com absoluta certeza.&lt;br /&gt;Entrei no banheiro e demorei mais que o habitual sob o chuveiro. Mesmo depois que me enxuguei com a toalha, senti uma estranha vontade de lamber algumas partes do meu corpo que eu julgava não completamente limpas. Dormi sem ligar a televisão e enrosquei-me com a cabeça apoiada nos braços dispensando o cobertor. Sonhei com gatas e ratos.&lt;br /&gt;No dia seguinte, acordei ainda de madrugada, contra meu costume de acordar mais tarde, e fiquei esperando o sol nascer. Queria ver a aurora. Queria guardar os seus raios amarelos nos olhos, ou no olho, para ver o que aconteceria à noite.&lt;br /&gt;Fui à geladeira, peguei o leite e uns biscoitos e coloquei na vasilha do gato. Estranhamente, tomei alguns goles do leite gelado, coisa que eu detesto ou detestava, e mastiguei alguns biscoitos. O gato, que até aquele momento havia se escondido não sei aonde, chegou à cozinha e, ao me ver com sua vasilha de leite, pulou rosnando raivoso sobre mim e quase me arranca o outro olho. Quando consegui atirá-lo a um canto e sair da cozinha, tinha os braços e o peito arranhado pelo meu bichano de estimação que agora me detestava.&lt;br /&gt;Percebi tudo. Com o olho que eu agora possuía, eu deixei de ser dono e agora era um concorrente. Os gatos são animais absolutamente territoriais e não abrem mão de seu espaço facilmente. Teria que resolver isto rapidamente: agarrei o gato, anestesiei-o com éter, arranquei-lhe os dois olhos.&lt;br /&gt;Quando as órbitas do gato sararam, comprei-lhe dois olhos humanos. Agora, reina a paz aqui em casa. À noite, após tomar meu pires de leite com biscoitos, saio pela janela e vou caçar pelos becos e vielas escuras, guiado pelo faro de mulheres com mêstruo recém-findo, enquanto o gato cochila em casa frente à televisão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6636427912780928403?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6636427912780928403/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6636427912780928403&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6636427912780928403'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6636427912780928403'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/09/conto.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMfQkSfvWMI/AAAAAAAAACk/YFM3iqWNj5k/s72-c/OLHO+MORANDI.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6261716292782530381</id><published>2008-09-09T17:18:00.000-07:00</published><updated>2008-09-09T17:37:36.981-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 3</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMcWkgTc7hI/AAAAAAAAACc/nML5EgqYHw8/s1600-h/cabrera_infante.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5244185107498855954" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMcWkgTc7hI/AAAAAAAAACc/nML5EgqYHw8/s320/cabrera_infante.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;Edgar Allan Poe inventou com três contos - "Os Crimes da Rua Morgue", "O Mistério de Marie Roget" e "A Carta Roubada" -, ele sozinho, a literatura policial, que são o conto e o romance de mistério. Todos os cultivadores do gênero recém-criado foram seus epígonos, de Arthur Conan Doyle, criador do insólito Sherlock Holmes, a Dashiell Hammett e Raymond Chandler, romancistas que foram também contistas e, de passagem, renovaram o gênero. Uma epígona (se alguém disse "jóvenas", eu posso muito bem dizer "epígona"), Agatha Christie, disse: "O conto é o domínio natural da literatura de crime e mistério". Muitos contistas, quase todos anglo-saxões, fizeram do conto seu habitat, que era como uma casa mal-assombrada. Todos seguiram o ditame de Poe, que disse que o conto "é uma narração curta em prosa" e definiu o conto breve como uma peça literária que "requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura". Eis aí um importante modo de usar, "com cuidado". Mas há - ah! - leitores descuidados. Para estes, a melhor maneira de ler é no avião - e um best-seller ou livro que se compra porque se vende.&lt;br /&gt;Os herdeiros de Mark Twain são tão numerosos quanto os seguidores de Poe, mas os primeiros, que chamaremos aqui humoristas, atentaram apenas para o lado luminoso da lua de Twain -sem enxergar suas regiões de sombra e de penumbra. O mais bem-sucedido deles foi Damon Runyon, com suas historietas em que o submundo de Nova York aparecia povoado de gângsteres sentimentais, jogadores sementais e uma porção de mulheres de moralidade duvidosa e um (pouco) siso legível como sexo. O cinema e o teatro, onde ninguém lê, criaram um Runyon ilustrado para iletrados. Runyon, que fazia rir, ia ao banco sempre rindo.&lt;br /&gt;Não foram só os contistas com humor que tiveram sucesso popular. A partir do século 19, houve também quem cultivasse - e fosse popular por algum tempo - essa estranha e elusiva planta chamada "conto fantástico". Na Inglaterra, onde se desperdiçara a tradição realista iniciada por Chaucer, houve muitos autores de fantasias cujo objetivo não era induzir o sonho, e sim o pesadelo. Lembro, entre outros, Arthur Machen, Saki e Roald Dahl.&lt;br /&gt;Na Irlanda, terra de luzidas lendas nada lúcidas, Sheridan le Fanu foi um contista de mistério e terror cuja coleção In a Glass Darkly (em Dublin, cidade alcoólica, tomam o espelho, "glass", como copo, e o livro se chama "Em um Copo Escuro") é um dos clássicos do conto de terror como horror. Sua contrapartida foi mais tarde o norte-americano H.P. Lovecraft, um precursor da ficção científica, gênero praticamente inventado por H.G. Wells na Inglaterra. A ficção científica encontrou no conto sua forma perfeita para uma arte imperfeita. Vale registrar que todos os mestres do conto de horror anglo-saxão têm, também eles, em Poe seu antecessor primordial.&lt;br /&gt;É preciso abrir aqui um parágrafo para Rudyard Kipling, talvez o maior contista inglês de todos os tempos. Kipling não fica nada a dever a Poe ou a Mark Twain, e é para a Inglaterra o que Maupassant foi para a França e Tchecov para a Rússia: um contista natural. Começou publicando em jornais indianos e, quando afinal foi a Londres, então o centro do universo literário, tinha apenas 20 anos (Kipling é quase nosso contemporâneo, morreu em 1936). Deixara para trás a Índia, embora fosse justamente seu lado muçulmano, mais do que o hindu, o que mais lhe interessava no subcontinente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6261716292782530381?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6261716292782530381/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6261716292782530381&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6261716292782530381'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6261716292782530381'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/09/folhetim-3_09.html' title='FOLHETIM # 3'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SMcWkgTc7hI/AAAAAAAAACc/nML5EgqYHw8/s72-c/cabrera_infante.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-2515816863001773625</id><published>2008-09-02T14:45:00.000-07:00</published><updated>2008-09-02T14:49:17.791-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 3</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SL20zmlCsHI/AAAAAAAAACU/JT-TGLwb_U8/s1600-h/CABRERA+INFANTE+3.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241544339951366258" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SL20zmlCsHI/AAAAAAAAACU/JT-TGLwb_U8/s320/CABRERA+INFANTE+3.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#663300;"&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os árabes, entre o harém e a areia&lt;br /&gt;As Mil e Uma Noites é a mais monumental compilação de contos do final da Idade Média. Esses contos são a mais traduzida (e conhecida) literatura árabe depois do Corão. Suas histórias ("Ali Babá e os 40 Ladrões", "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa" e "Simbá, o Marujo") são hoje tão populares como quando foram traduzidas aos diversos idiomas europeus. Sua influência é perceptível desde Boccaccio e Chaucer. Mas, já antes deles, um extraordinário escritor espanhol, o infante d. Juan Manuel, incluiu em seu "Libro de los Enxiemplos" mais de um conto árabe extraído de "As Mil e Uma Noites", então reconvertidas em tradição oral.&lt;br /&gt;Ao contrário do que acontece com os contos contemporâneos na Europa, As Mil e Uma Noites têm mil e um autores, e a esperta princesa Sherazade é um autor coletivo que conta com voz de mulher. São, em todo caso, contos de encanto, e até seu título em árabe é encantador, encantatório: "Alf Layla wa Layla". Dessa vasta coleção de contos rastreou-se a origem até o século 9º d.C. Sua última forma é do século 16. Isso quer dizer que, com seu feitiço oriental, o livro cobre quase toda a Idade Média cristã - embora diga, no início de cada conto: "... mas Allah é mais poderoso". Em seguida vem uma espécie desconhecida de poesia que as infiéis e cruentas traduções não conseguiram aniquilar. Sherazade é a mais poderosa máquina de matar o tédio e a crueldade do rei que sempre assassinava a consorte de cada noite, à exceção da contista, uma mulher amena, apesar de ameaçada.&lt;br /&gt;Chaucer repetiu o esquema em seus Contos de Canterbury, mas em verso. Quem o conseguiu em prosa foi Boccaccio, em seu imitado, inimitável Decameron. É curioso que Cervantes, um artista supremo, tenha buscado inspiração nos contos italianos e não nos exemplos do infante d. Juan Manuel, que, diga-se de passagem, deu a Shakespeare seu "Relato de Mancebo que Casó con Mujer Brava". Acontece que Boccaccio é um contista natural, tal como a contadora de histórias árabe. Cervantes, que inaugurou o romance moderno, o mais imitado, chamou o Quixote de livro e de "novelas exemplares" seus contos, declarando que "de modo algum poderás fazer", leitor, "mistifório". Mas revelou seu ofício e arte: "Meu intento foi armar (...) uma mesa de carambolas". E acrescentou: "Onde cada qual encontre com o que se entreter".&lt;br /&gt;Um escritor cairota, Naguib Mahfuz, em suas Noites das Mil e Uma Noites, que o editor cataloga como romance (os editores são capazes de chamar de romance a lista telefônica, que pode não ter narração, mas tem uma porção de personagens), esse escritor consciente, demasiado consciente, tenta se tornar uma Sherazade assídua. Mas fracassa em seu intento. O livro quer ser árabe e é apenas egípcio.&lt;br /&gt;Por outro lado, Los Cuentos Negros de Cuba são minhas mil e uma noites negras, contadas por uma Sherazade branca, Lydia Cabrera, para entreter as noites em claro de uma amiga agonizante. No final do livro, a doente já estava morta, mas os contos vivem na imortalidade da literatura. Eu os classifiquei, qualifiquei, como "antropoesia".&lt;br /&gt;A trama tecida noite após noite por Sherazade, Penélope contista com milhares de pretendentes, levou muitos escritores - desde d. Juan Manuel, Boccaccio e Chaucer - a tentar uma imitação em que diversos talentos buscam emular o encantamento árabe. Poucos o conseguiram, mas um escritor nosso contemporâneo, Manuel Puig, em seu O Beijo da Mulher Aranha, é uma Sherazade argentina que a cada noite conta um filme inventado para seu companheiro de cela, seu vizir cruel: completamente surdo às dádivas orais que lhe oferece Puigrazade - assim como é cego a suas investidas sexuais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-2515816863001773625?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/2515816863001773625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=2515816863001773625&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2515816863001773625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/2515816863001773625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/09/folhetim-3.html' title='FOLHETIM # 3'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SL20zmlCsHI/AAAAAAAAACU/JT-TGLwb_U8/s72-c/CABRERA+INFANTE+3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6390144671330665529</id><published>2008-08-27T04:03:00.000-07:00</published><updated>2008-08-27T04:09:28.302-07:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLU1WCa9mYI/AAAAAAAAACM/zbBfWMCInJU/s1600-h/REV%C3%93LVER.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239152394238794114" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLU1WCa9mYI/AAAAAAAAACM/zbBfWMCInJU/s320/REV%C3%93LVER.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;A doce rapadura da vingança&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem pensaria que numa tarde como aquela, sem graça e sem mistério, com a luz do sol filtrada por nuvens no poente e alguns cachorros passeando na pracinha, iria acontecer o encontro de Aprígio Justo e Antunino?&lt;br /&gt;Não era pra acontecer, porque nenhum dos dois fez por onde o fato ali desembocasse, mas aconteceu durante algumas horas em que um desejou lamber um sorvete de morango, e o outro não achou quem lhe comprasse um remédio na farmácia. Também porque, devido aos quinze anos em que tal fato vinha sendo construído, muitos até esperavam que este encontro jamais acontecesse ou, se tivesse de acontecer, decerto não seria assim tão improvisado pela surpresa.&lt;br /&gt;Remontando-se o acontecido e o que fizeram os dois naquelas bobas horas, ver-se-ia o destino mexendo seus pauzinhos, a fatalidade calculando seus desígnios; alguns riscos sobre um mapa mostrariam as paralelas rancorosas que traçaram com seus rastros durante quinze anos, naquela tarde convergindo na pracinha devido a um cochilo da improbabilidade. E o pior deste capricho: nenhum viu o outro até que estivessem frente a frente.&lt;br /&gt;Antes que se vissem, já os moleques se embrenharam pelos becos, e as portas e janelas foram se fechando. Como polícia não havia, o medo paralisava quem assistia pelas frestas, pois o desfecho era inevitável e não poderia ser interrompido: o assunto era terrivelmente particular.&lt;br /&gt;O silêncio desses minutos arrastados que antecedem as tragédias existe mesmo, e é ele quem espalha a má notícia. E assim, em pouco tempo, se formou uma assistência, retraída nos anteparos das esquinas, dissimulada nos desvãos, nos balaústres, expectando ferro e pólvora.&lt;br /&gt;Aprígio tinha suas cicatrizes morais e uma cicatriz medonha, real, de bordas salientes, que sangrava quando as lembranças vinham fortes, quase uma menstruação que lhe renovava o fértil útero da vingança. A cicatriz era um O quase perfeito, considerando-se as poucas letras do escritor, um terceiro olho afixado em sua testa pelo punhal rombudo de Antunino.&lt;br /&gt;Antunino também tinha a sua, uma cruz não menos grotesca, mal escrita, profunda, roxa e torta, que ele carregava rancoroso e envergonhado.&lt;br /&gt;Cada um guardava ódio ao outro na proporção da humilhação que imaginavam ter sofrido. O que Aprígio carregava tinha-lhe sido imposto numa briga de bêbados, onde Antunino, por pura bazófia e por medo de matar gratuitamente, lhe assinalara como um boi de pasto. Vã glória que lhe custou anos e anos de vida sobressaltada e fuga da vingança.&lt;br /&gt;Anos depois, num descuido de retaguarda, num cochilo da vigilância, Antunino recebeu a marca daquela cruz, anestesiado pelo medo, ao se ver subjugado pelo ódio de Aprígio. Naquele momento, pensou que a morte era coisa de minutos. Não foi. Após caligrafar a sua marca na testa de Antunino, Aprígio lhe falou já quase calmo:&lt;br /&gt;- Você tem seis anos, três meses e doze dias de vida. É o tempo que eu passei com sua marca. Você vai passar o mesmo tempo com a minha. Nesse tempo, você pode passar na minha porta, pedir água na minha casa, até me provocar que eu não vou levantar minha mão para você. Depois disso, eu vou caçar você. Vou sangrar você como faço com os porcos. Não esqueça: seis anos, três meses e doze dias!&lt;br /&gt;Passado esse tempo, começou o martírio dos dois. Aprígio, que era açougueiro de porcos e cabritos, já não pôde oferecer carne de porta em porta, nem fazer, sem sustos, a entrega habitual de seus fregueses. Antunino, que comerciava com tecidos e miudezas, não podia expor suas mercadorias pelas feiras da região, pois no meio de tanta gente, como poderia perceber a aproximação do inimigo? Andar pela cidade era um exercício de sobressaltos, cautelas e excitação. Para se deslocarem com segurança, tinham desenvolvido o faro dos cachorros, a audição das lebres e o tato dos deficientes visuais.&lt;br /&gt;Dormir, mesmo dentro de casa, com portas e janelas aferrolhadas duplamente, era sempre um sobressalto: coisa de meio sono, de sono inteiro com um olho só. Os dois se sentiam caçados, cada um sendo caçador. Quando se caminha em círculo, quem vai à frente e quem vai atrás?&lt;br /&gt;Gastaram anos no estudo dos movimentos um do outro, de tal forma que cada um deles sabia mais do outro do que de si próprio. E tinham espias. Gente que dava notícias do trajeto e descaminhos de cada um, numa batalha de espionagem e contra-espionagem que, de tão perfeita, se anulava. Os dois faziam sua guerra fria particular, terrível e cheia de tensões, como se cada um carregasse no bolso da algibeira uma ogiva nuclear.&lt;br /&gt;Apesar das tentativas de conciliação, dos terceiros que tentavam evitar a hecatombe, o ódio parecia recrudescer. De pouco adiantaram os embaixadores, os conciliábulos, as mesas-redondas. Os dois grandes lá não compareciam, e tudo continuava como antes.&lt;br /&gt;Os serviços de inteligência de ambos funcionavam a pleno vapor. Não estancavam os relatórios:&lt;br /&gt;- Ele comprou uma mauser nova!&lt;br /&gt;- Ontem trocou o trinta e dois antigo por um trinta e oito quase novo!&lt;br /&gt;- Treinou pontaria com muitos tiros no quintal da casa!&lt;br /&gt;- Viajante lhe trouxe um punhal de aço inoxidável!&lt;br /&gt;Até agentes infiltrados possuíam. Quinta coluna, agente duplo. Gente que queria ver o circo pegar fogo.&lt;br /&gt;Quando os familiares reclamavam da exacerbação do conflito, da necessidade de paz, dos prejuízos econômicos que aquela guerra provocava, eles respondiam com uma retórica estratégica que, traduzida nas devidas proporções, significava exatamente coisas como: poder de retaliação, ataque preventivo, a paz na guerra, equilíbrio de forças, e vocabulário semelhante.&lt;br /&gt;Isto tudo continuou até aquele dia, quando, sem querer, encontraram-se frente a frente, ali, na praça. Seria a hecatombe? Qual dos dois sucumbiria? Pelo arsenal de ódio acumulado durante tanto tempo, era de se esperar a morte dos dois, e dias de lamúrias e orações a leste e a oeste.&lt;br /&gt;Quando viu o inimigo frente a frente, Antunino quis gritar alguma ofensa, mas as palavras quiseram sair todas de uma vez e atravancaram-se antes de chegarem à boca, e ele só conseguiu emitir grunhidos e bufos enquanto seu rosto adquiria aquela cor cerosa, âmbar, própria das horas decisivas e terríveis. Aprígio também não conseguiu articular seu grito primal, vomitar os sons da guerra: maquiou o rosto com a mesma cor usada por Antunino e teve um acesso de tosse intenso, porém breve.&lt;br /&gt;Sacaram as armas quase ao mesmo tempo: a mauser niquelada e pálida mirou seu olho frio sobre Antunino, enquanto o trinta e oito, bojudo, grávido de seis filhotes, enquadrava Aprígio na ponta de sua mira empertigada. Agora era só chegar a ordem, a descarga elétrica no tendão do indicador, e a chuva de ogivas daria um ponto final àquela história.&lt;br /&gt;Mas a logística desses exércitos individuais também tem suas falhas. Confundem-se as ordens, desencaminham-se as providências, atrapalham-se as iniciativas, entrechocam-se os bedéis da retaguarda. Pane? Duros ficaram os dois, a platéia sequer respirou. Num, rompeu-se algum fino duto na altura da cabeça? No outro, um destrambelho qualquer no miocárdio?&lt;br /&gt;Miram-se minutos. Longos e agoniados minutos. Tempo de rever o passado em coisa de segundos; sentir, hipnotizado, a moenda da memória vomitar cada coisinha guardada, esgotar a cacimba de ódios, trazer de volta para uma última conferência o quarto de despejo da lembrança.&lt;br /&gt;Sem que ninguém entendesse, as armas inclinaram-se para o chão, e os dois, como se tivessem combinado algo sem dizer palavras, dão-se as costas e saem da arena da pracinha.&lt;br /&gt;Cada um voltou pro seu território, já no caminho refazendo as estratégias, a usina de ódio retomando a sua incessante fabricação de espuma e bílis, cada um organizando o tempo que teria ainda para se dedicar a lamber a doce rapadura da vingança. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#000066;"&gt;Geraldo Maciel&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6390144671330665529?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6390144671330665529/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6390144671330665529&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6390144671330665529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6390144671330665529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/conto_27.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLU1WCa9mYI/AAAAAAAAACM/zbBfWMCInJU/s72-c/REV%C3%93LVER.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-7523072351851538781</id><published>2008-08-23T16:43:00.000-07:00</published><updated>2008-08-23T16:49:49.084-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLChlRU1oXI/AAAAAAAAACE/-nc09PFXrHs/s1600-h/cabrerainfante_g-19950202.2.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5237864028309922162" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLChlRU1oXI/AAAAAAAAACE/-nc09PFXrHs/s320/cabrerainfante_g-19950202.2.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO – PARTE 1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guillermo Cabrera Infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conto é tão antigo quanto o homem. Talvez até mais, pois podem muito bem ter existido primatas ancestrais que contavam contos feitos inteiramente de grunhidos, que são a origem da linguagem humana: um grunhido, bom; dois grunhidos, melhor; três grunhidos já são uma frase. Assim nasceu a onomatopéia e com ela a epopéia. Mas antes desta, cantada ou escrita, houve contos feitos inteiramente de prosa: um conto em verso não é um conto, mas outra coisa: um poema, uma ode, uma narração com métrica e talvez com rima: uma ocasião cantada, não contada, uma canção.&lt;br /&gt;Antes até que aquele anônimo artista de Altamira pintasse seus minuciosos murais, deve ter existido um autor anônimo na região que contasse contos para seus companheiros de caverna sentados em volta de uma fogueira. O homem, como sabemos, é o único animal que faz fogo. O contista é o único ser humano que faz contos. Esses contos seriam, por exemplo, narrações de um dia de caça perdido no encalço de um cervo branco com um chifre na testa. Os contos não perduraram nas paredes da caverna, mas não se perderam: foram reencontrados, contados, na memória coletiva.&lt;br /&gt;Séculos mais tarde, outro contista pegou o mesmo conto, embelezou o cervo branco e o converteu em mito ao chamá-lo unicórnio. Embora a experiência fosse alheia, tomou e fez seu o tema do unicórnio perdido. Muitos séculos mais tarde, outro contista enfeitou com metáforas (isto é, embelezou poeticamente) esse animal único com seu único chifre. Passados outros tantos séculos, o homem que conta já havia aprendido a escrever (e, é claro, a ler), e outros animais e outros homens que se transformavam em animais povoaram com contos o que chamamos mitologia, mas que para eles era essa transcendência chamada religião.&lt;br /&gt;Em outro século, quando outros homens já não acreditavam nessa religião de deuses tão humanos que se confundiam com os simples mortais, um deles, um poeta chamado Ovídio, escreveu As Metamorfoses. De religião, esses textos não tinham mais do que aqueles primeiros contos contados em volta de uma fogueira numa caverna. Isso fez do conto o gênero literário mais antigo e mais protéico.&lt;br /&gt;Protéico, como se sabe, vem de Proteus, deus grego que estréia na cena olímpica com a "Odisséia", poema feito de contos. Proteus sabia tudo de tudo, mas mudava de forma para não ser interrogado. Isto é, fazia o contrário de um autor atual, que nunca muda de forma, mas procura sempre ser interrogado: pela imprensa, pelo rádio e pela televisão - e, às vezes, pela polícia. Creio desnecessário frisar que Proteus era uma metamorfose feita deus. Proteus está muito perto de prosa, que é o que os contistas cultivam. Protéico, prosaico - dá na mesma.&lt;br /&gt;Os gregos, além de Homero e sua Odisséia, cultivavam o conto, e um romancezinho, que é o que é Dafne e Cloé, publicado no segundo ano da nossa era, foi seu provável precursor.&lt;br /&gt;Mas são contos os fragmentos que fazem do Satyricon, de Petrônio, um romance, e um de seus mais memoráveis é aquele intitulado "A Viúva de Éfeso", um conto perfeito e muitas vezes citado, copiado até. Entre outros por Jean Cocteau, poeta tão teatral que transformou o conto em peça, ganhando-o para o teatro. O conto, logo protéico, parece desaparecer na Idade Média, mas na verdade se veste com os versos do romance, seja nos "romans courtois", onde aparece como história de aventuras, seja no "Roman de Renart", em que serve a um fabulário, não longe do zoológico de Esopo. Na saga arturiana (que não se deve confundir com a sopa asturiana, conto de favas), o romance adquire um tom mágico, quase místico, que lhe é exclusivo. Mas a história paralela do amor fatal de Tristão pela bela Isolda é, como quer Bédier, um conto de amor, de loucura e de morte cuja aura mágica não fica nada a dever aos modelos gregos e romanos. Mas o conto, sempre recomeçado, reaparece onde menos esperariam os trovadores medievais: no Oriente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#990000;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;color:#990000;"&gt;Caricatura de David Levine (New York Review of Books)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-7523072351851538781?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/7523072351851538781/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=7523072351851538781&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7523072351851538781'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7523072351851538781'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/folhetim-2.html' title='FOLHETIM # 2'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SLChlRU1oXI/AAAAAAAAACE/-nc09PFXrHs/s72-c/cabrerainfante_g-19950202.2.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-8838789183051305733</id><published>2008-08-17T16:25:00.000-07:00</published><updated>2008-08-17T16:34:17.487-07:00</updated><title type='text'>PARÁGRAFO # 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKi1PqoqPmI/AAAAAAAAAB8/cQ7sWHwQJVg/s1600-h/baleia+-+aldemir+martins.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5235633847565696610" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKi1PqoqPmI/AAAAAAAAAB8/cQ7sWHwQJVg/s320/baleia+-+aldemir+martins.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariamcomela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;VIDAS SECAS - GRACILIANO RAMOS. 89a. edição. Editora Rrecord - 2003.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;                       Desenho: Aldemir Martins&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-8838789183051305733?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/8838789183051305733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=8838789183051305733&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8838789183051305733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8838789183051305733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/pargrafo-2.html' title='PARÁGRAFO # 2'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKi1PqoqPmI/AAAAAAAAAB8/cQ7sWHwQJVg/s72-c/baleia+-+aldemir+martins.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-1435050059170087989</id><published>2008-08-13T16:59:00.000-07:00</published><updated>2008-08-13T17:02:35.067-07:00</updated><title type='text'>EM BREVE! FOLHETIM:</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN2EvMsHmI/AAAAAAAAAB0/61BGxuxrnS4/s1600-h/CABRERA+INFANTE.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234157015695892066" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN2EvMsHmI/AAAAAAAAAB0/61BGxuxrnS4/s320/CABRERA+INFANTE.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;UMA HISTÓRIA DO CONTO &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;POR GULHERMO CABRERA INFANTE&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(EM CAPÍTULOS)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-1435050059170087989?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/1435050059170087989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=1435050059170087989&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/1435050059170087989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/1435050059170087989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/em-breve-folhetim.html' title='EM BREVE! FOLHETIM:'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN2EvMsHmI/AAAAAAAAAB0/61BGxuxrnS4/s72-c/CABRERA+INFANTE.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-173001142122498258</id><published>2008-08-13T16:52:00.000-07:00</published><updated>2008-08-13T16:58:45.907-07:00</updated><title type='text'>PROTOTEXTO # 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN1KqpcOaI/AAAAAAAAABs/XMOSHs_5x8A/s1600-h/gr%C3%A1vida.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5234156018041895330" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN1KqpcOaI/AAAAAAAAABs/XMOSHs_5x8A/s320/gr%C3%A1vida.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#666600;"&gt;HERANÇA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não és. Nadas neste lago transparente e espesso boiando como uma cortiça tonta, um pequeno bólido nunca lançado a lugar nenhum. E esperas. Esperas o clarão de luz, o ar que te provocará ardências desconhecidas, e quando saíres levarás o primeiro tapa que te carimbará na pele a violência que te acompanhará em cada esquina. Ouvirás meu choro e minha alegria, sentirás o quão morna são as minhas lágrimas e quão macia pode ser a minha áspera pele. Talvez o mundo te pareça muito estranho, mas saibas que ele te será tão mais estranho quanto mais tempo vivas, e que com ele e as coisas jamais farás as pazes por completo.&lt;br /&gt;Se fores homem, a arrogância te habitará como um flagelo, a estupidez te será uma companheira inseparável e a ignorância te vendará os olhos. O suor te amargará os lábios, e o cansaço habitará as tuas juntas até a morte. A alegria te será servida a conta-gotas e herdarás tão pouca fé que te sentirás só mundo, apesar dos ruídos à tua volta. Amargarás a ausência da doçura que repeles e chorarás escondido como purgação dos pecados que não cometestes.&lt;br /&gt;Se fores mulher, ai de ti se fores mulher! Sofrerás sorrindo como se isso fosse remissão, e as dores repartirão contigo o frio do leito. A ti não será dado o direito de ser protegida, mas a obrigação de ser o escudo do mundo. Serás uma usina de transmutação. Em ti, a amargura mudar-se-á em compaixão, a desesperança levará à fé e não ao desespero, a chama de tua esperança, mesmo trêmula, terá a obrigação de iluminar a noite das sendas do futuro.&lt;br /&gt;Mas sei que serás mulher.&lt;br /&gt;E sendo assim, deixo-te um alqueire de rugas, mapa antigo, nenhuma bússola que te guie, e uma dorna de lágrimas tintas que te umedecerá a boca; mãos rudes e dores pelo corpo, pequenas alegrias e rezas esquecidas. Também o ninho onde germinará o fruto a quem deixarás a mesma coisa que te deixo. Deixo-te a chave de nenhuma porta, a certeza de minha ignorância e uma interminável esperança que deves guardar como a um segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#666600;"&gt;Geraldo Maciel&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-173001142122498258?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/173001142122498258/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=173001142122498258&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/173001142122498258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/173001142122498258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/prototexto-2.html' title='PROTOTEXTO # 2'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SKN1KqpcOaI/AAAAAAAAABs/XMOSHs_5x8A/s72-c/gr%C3%A1vida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3535958807453261515</id><published>2008-08-10T12:44:00.000-07:00</published><updated>2008-08-10T12:51:53.887-07:00</updated><title type='text'>DECÁLOGO DO CONTISTA</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJ9GtXZXB8I/AAAAAAAAABk/nGBrIS3diIc/s1600-h/HORACIO+QUIROGA.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5232979037216245698" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJ9GtXZXB8I/AAAAAAAAABk/nGBrIS3diIc/s320/HORACIO+QUIROGA.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#663333;"&gt;Horácio Quiroga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.2 - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.3 - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.4 - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.5 - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.6 - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si. 7 - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.8 - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.9 - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.10 - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3535958807453261515?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3535958807453261515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3535958807453261515&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3535958807453261515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3535958807453261515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/declogo-do-contista.html' title='DECÁLOGO DO CONTISTA'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJ9GtXZXB8I/AAAAAAAAABk/nGBrIS3diIc/s72-c/HORACIO+QUIROGA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-7006567367162486044</id><published>2008-08-04T16:03:00.000-07:00</published><updated>2008-08-06T15:25:55.348-07:00</updated><title type='text'>CONTO</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJok1Flr8LI/AAAAAAAAABc/_7bxAMARuLQ/s1600-h/Trapezistas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5231534411596165298" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJok1Flr8LI/AAAAAAAAABc/_7bxAMARuLQ/s320/Trapezistas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Um salto para bem longe&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para João Batista de Brito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia o bode alpinista e o menino, seu coajudante. O menino, flutuando no mundo, sonhava com papagaios coloridos e pirulitos rasga-bocas. O bode, com uma inquieta alegria nas patas, exibia um enorme par de testículos sobressalentes. De comum, ambos tinham a inocência e uma submersa tristeza nos olhos.&lt;br /&gt;O palco era o Fênix, um circo de panos apodrecidos, carcaça de glória do Fênix de mastros eretos e bandeirolas coloridas. Isto podia ser visto pelos restos do antigo pássaro que ornava o frontão de entrada, onde ainda se podia distinguir o contorno da majestosa envergadura e um ou outro desbotado tom do antigo colorido sob descuidadas demãos de reparo que mais os escondiam que os realçavam. Um palimpsesto da antiga condição.&lt;br /&gt;Na verdade, o Fênix era um circo muito mais por necessidade e brio do que pela tortuosa espinha do mastro, a frágil paliçada de estacas ou a pele rota dos panos, esgarçada e transparente, já nem um biombo separando aquela arte e a vida lá fora. O picadeiro era uma redoma circular de pouco raio, e o palco um retângulo sem consistência de medidas.&lt;br /&gt;Perambulava por povoados cada vez menores após haver se desgarrado da órbita de cidades maiores e ser colhido pela força irresistível da pobreza do interior, das pequenas cidades, vilas e povoados como aquele onde agora estava.&lt;br /&gt;O bode e o menino, adolescentes, quase crianças, não trabalhavam na armação. Os adultos cavavam os buracos, esticavam os arames, estendiam os poucos panos.&lt;br /&gt;O repertório do espetáculo era mínimo. Ia diminuindo com o tempo, por morte do artista titular, desistência de um ou outro ou contenção de despesa. O que sobrava era um pequeno número de entretenimentos que, de tão repetidos, já não tinham brilho, viço ou novidade.&lt;br /&gt;O elenco era reduzido. Havia o bode e o menino. Havia Hércules, de quem a idade e a vida nas barracas chuparam os recheios musculares. Sua força se reduzira, e rasgar pratos de alumínio exigia agora um pequeno talho invisível na borda dos pratos de folhas mais delgadas, para o que contava com o desleixo ganancioso dos fabricantes. Hércules fazia ainda as vezes de porteiro e ajudante de picadeiro, e sua mulher, recém chegada àquele mundo, ajudava na bilheteria. Nos espetáculos, ela tentava ajudar na coreografia dos números de canto e dança. O macaco, senil, já não trabalhava. Limitava-se a catar pulgas e cochilar ao pé do mastro, o que não deixava de ser uma atração.&lt;br /&gt;Havia Bengalinha, o palhaço, já velho, cansado da itinerância, dos palcos quase sempre vazios, de ter que ceder seu espaço para cantores lamurientos e sucessos de gosto duvidoso. A chama de palhaço e o carisma humorístico quase não existiam mais, só aparecendo vez ou outra, deixando sempre nele a impressão de que aquela fora a última vez, o último espetáculo. Mas ele sempre continuava. Com chuva ou noite estrelada, repetia os números, as piadas, já nem ouvindo a reação do público. Reagia como um funcionário público.&lt;br /&gt;A cantora gorducha, com sua voz engordurada e seu sinal na coxa, deliciava o público masculino. Fazia sucesso, fosse qualquer o número que cantasse, estivesse rouca ou fora do compasso. Seu sucesso dependia mais das insinuações e da generosidade da abertura da saia do que de sua atuação cantante.&lt;br /&gt;Os trapezistas tinham nome, renome até, segundo diziam. Já haviam voado sob os toldos coloridos do Grande Circo de Moscou, do Ringling Circo e do Gran Circo d’Itália. Apesar do estado atual de ambos, ainda ostentavam o nome de irmãos Taviani, um resquício da antiga glória, ainda conservado pela necessidade da aura que os nomes estrangeiros dão aos artistas. Era o elenco.&lt;br /&gt;Após vários meses nas outras praças, quase sem conseguir atrair nenhum espectador, o circo Fênix conseguiu chegar ali no socavão da serra, até pouco tempo nem tendo estrada carroçável, e aonde nunca tinha ido um circo.&lt;br /&gt;Na tarde da estréia, após ter baixado a poeira da novidade e terminado o trabalho de armação, o bode viu sair Bengalinha com seu séqüito de moleques anunciando o espetáculo maravilhoso. E quando o palhaço anunciou, à poeira e ao cochilo daqueles moradores, o espetáculo fantástico, alguma coisa de anormal aconteceu. Nuvens acumularam-se a leste, e do sudeste correu uma brisa fresca como há tempos não se via. Pessoas lavaram os rostos nas gamelas, e as crianças inquietaram-se como se fosse tempo de ir para a escola. À noite, quase houve tumulto em frente à boquinha de meia-lua da bilheteria. O circo lotou.&lt;br /&gt;Queriam ver os trapezistas bêbados, os afilhados do vácuo, os inimigos da gravidade? Ou queriam ver somente o bailado no ar, o contorcer quase gracioso da cantora gorducha, coisas que as mulheres do lugar não sabiam fazer e nem os cipós da capoeira conseguiam imitar? As crianças, com certeza, esperavam por Bengalinha e seus cansados números, para elas ainda novidade.&lt;br /&gt;As pessoas, por ouvir dizer, sabiam das maravilhas que no circo se faziam e queriam ver aqueles prodígios que a propaganda retumbante do megafone de lata anunciou pelas três ruas do povoado: o nunca visto salto triplo, mortal, sem rede, com os artistas de olhos vendados.&lt;br /&gt;As maravilhas que a propaganda opera nos negócios! Ninguém imaginou ser impossível voar sem venda e sem rede, num salto triplo mortal, principalmente sendo os dois os irmãos Taviani. Afinal, aqueles dois trapezistas, mesmo um tanto debilitados e maduros, eram ainda os maiores. Tanto que há vinte anos se ouvia falar neles e, ali no socavão, foram embalsamados pela fama. E agora eles estavam ali! Por este motivo, o Fênix conseguiu lotar o semicírculo das arquibancadas e a dúzia de cadeiras à frente do picadeiro.&lt;br /&gt;O elenco tomou um susto com platéia tão numerosa. Nestes tempos duros, a renda dos espetáculos mal dava para alimentar o elenco com uma refeição diária, e o translado de uma praça a outra era muitas vezes objeto da benevolência alheia, despertada pelos dotes físicos da cantora ou pelo medo de que o circo tirasse de circulação o pouco dinheiro que ainda girasse no local. Uma platéia abarrotada nesse tempo era coisa rara. Bengalinha voltou a sentir os calafrios das estréias.&lt;br /&gt;Um Taviani, o mor trapezista, sentado a um canto, chamou o menino:&lt;br /&gt;- Você foi ao mato dar comida ao bode? Ele tem de encher a barriga senão fica nervoso e não consegue fazer nada. E veja só como está a platéia hoje!&lt;br /&gt;O menino já havia feito sua tarefa. O bode, a um canto, ruminava. Sua barbicha professoral tremia: mastigava o hábito. Os dois não tinham segredos.&lt;br /&gt;- Será que nos outros dias também vai dar gente? Era a pergunta do menino.&lt;br /&gt;- Vai. A praça é boa. Gente simples, sem diversão. Praça pra uma semana.&lt;br /&gt;A resposta parecia pedir uma confirmação. O menino e o bode sentiam alguma coisa, um pressentimento, parente da premonição. Era algo mais que a emoção da estréia, mais que a novidade do circo lotado, coisa além do nervosismo do primeiro espetáculo, algo pesado e desconhecido, medo sem fundamento, surpresa que ainda não deu o bote.&lt;br /&gt;O público murmura, coletivo, quando o pano abre e o mestre de cerimônias inicia a função: “Senhoras e senhores, distinto público, o Grã Circo Fênix tem a honra de apresentar...”, e inicia-se o espetáculo. O toldo da cobertura era o céu estrelado onde a Ursa Maior passeava sem pressa. E vem o malabarista, o equilibrista, o palhaço, o bode e seu domador, a cantora, todos recebidos pelos aplausos ardorosos da platéia. Por fim, anunciam os trapezistas. O público os recebe em silêncio, como se fossem monstros sagrados ou dois condenados à execução.&lt;br /&gt;Os números se sucedem até que os Taviani sobem ao trapézio e começam a fazer algumas manobras. Esquentam os músculos e domam o medo, que é parceiro e padrinho de todos os trapezistas.&lt;br /&gt;Não rufam os tambores. Rangem as juntas das cadeiras do palco, estalam as tábuas da arquibancada. Iniciam-se as manobras: vôos no vácuo, mãos e pulsos, garras suadas segurando a probabilidade com a força dos náufragos. Os Taviani estão perfeitos. Felizes. As palmas lhes dão de volta a glória que pensavam estar aposentada, a lembrança dos toldos coloridos sobre a cabeça, a vontade de ousar, como só ousam os jovens artistas.&lt;br /&gt;O público delira e pede mais. Os irmãos Taviani excedem as possibilidades de um trapézio tão curto, de um espaço tão pequeno, de uma impulsão limitada. A ausência de rede não permite mais que aquilo. O público não sabe o que é rede, nem conhece o medo dos artistas: pede o salto mortal. Por trás dos panos, os outros artistas gelam.&lt;br /&gt;Os Taviani parados, em pé sobre as plataformas, olham-se como gladiadores irmãos. Abaixo deles, as coisas são tão pequenininhas! Só chegam os gritos, as palmas. Não vêem os olhos esbugalhados e ansiosos, os acenos desesperados de Bengalinha que lhes grita:&lt;br /&gt;- Não! Sem rede, não!&lt;br /&gt;Quem ouve Bengalinha? Sua voz já é fraca e sem convicção, e aqueles outros são bem mais numerosos e gritam, aplaudem como há tempos não ouvia um Taviani.&lt;br /&gt;Eles sabem que numa qualquer noite, nessa noite, a corda pode se romper, e um deles irá flutuar numa bolha de medo e morrer? Sabem que todo vôo é como se fosse o último vôo? Que, se dali se desgarrarem, serão ejetados em direção às estrelas, onde não há público, e todo espaço é um trapézio de onde nunca se cai porque tudo nele é uma queda sem fim? Ou tudo é bem mais simples, é somente o sangue em corredeiras, o suor nas mãos geladas, o medo e a coragem abraçados, só? É por isso que rezam antes do salto?&lt;br /&gt;Resguardados em um canto, o menino e o bode ouvem os urros da platéia e olham para o céu. Acompanham fiapinhos de nuvens deslizando no azul escuro enquanto estrelas juntam-se à tristeza no fundo de seus olhos. E ouvem os gritos do elenco tentando impedir o salto dos irmãos. O menino agarra-se ao bode compreendendo que aquilo era grande e perigoso. Os adultos haviam enlouquecido ou se embriagado. Tinha medo de ficar sozinho, perdido naquela barraca armada no meio do mundo, ele e seu amigo.&lt;br /&gt;De repente, os trapezistas fazem um gesto que cala a platéia e o elenco. Todos silenciam como se presenciassem o inevitável: os irmãos se olham mais uma vez e começam a balançar no seu elemento como se aquilo uma flutuação fosse. Preparam o salto mortal.&lt;br /&gt;O menino tremia e olhava as estrelas, procurando ver um dos Taviani já boiando no vácuo sem fim. O bode, lá do seu canto, irraciocinava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geraldo Maciel&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;De &lt;em&gt;Inventário de Pequenas Paixões,&lt;/em&gt; Editora Manufatura, 2,000.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-7006567367162486044?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/7006567367162486044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=7006567367162486044&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7006567367162486044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/7006567367162486044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/conto.html' title='CONTO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/SJok1Flr8LI/AAAAAAAAABc/_7bxAMARuLQ/s72-c/Trapezistas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6403401607912297473</id><published>2008-08-01T03:01:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T03:07:44.455-07:00</updated><title type='text'>FOLHETIM # 1</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp3.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJLgAK1DMgI/AAAAAAAAAAk/Q8YkLjChDxA/s1600-h/poe-+trimano.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5229488410842051074" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp3.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJLgAK1DMgI/AAAAAAAAAAk/Q8YkLjChDxA/s320/poe-+trimano.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;Teses sobre o conto&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; - (Ricardo Piglia )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Num de seus cadernos de notas Tchecov registrou este episódio: "Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa, se suicida". A forma clássica do conto está condensada no núcleo dessa narração futura e não escrita.&lt;br /&gt;Contra o previsível e convencional (jogar-perder-suicidar-se) a intriga se estabelece como um paradoxo. A anedota tende a desvincular a história do jogo e a história do suicídio. Essa excisão é a chave para definir o caráter duplo da forma do conto.&lt;br /&gt;2. Primeira tese: um conto sempre conta duas histórias.&lt;br /&gt;O conto clássico (Poe, Quiroga) narra em primeiro plano a história 1 (o relato do jogo) e constrói em segredo a história 2 (o relato do suicídio). A arte do contista consiste em saber cifrar a história 2 nos interstícios da história 1. Uma história visível esconde uma história secreta, narrada de um modo elíptico e fragmentário.&lt;br /&gt;O efeito de surpresa se produz quando o final da história secreta aparece na superfície.&lt;br /&gt;3. Cada uma das duas histórias é contada de maneira diferente. Trabalhar com duas histórias significa trabalhar com dois sistemas diversos de causalidade. Os mesmos acontecimentos entram simultaneamente em duas lógicas narrativas antagônicas. Os elementos essenciais de um conto têm dupla função e são utilizados de maneira diferente em cada uma das duas histórias.&lt;br /&gt;Os pontos de cruzamento são a base da construção.&lt;br /&gt;4. No início de "La Muerte y la Brújula", um lojista resolve publicar um livro. Esse livro está ali porque é imprescindível na armação da história secreta. Como fazer com que um gângster como Red Scharlach fique a par das complexas tradições judias e seja capaz de armar a Lönrot uma cilada mística e filosófica? Borges lhe consegue esse livro para que se instrua. Ao mesmo tempo usa a história 1 para dissimular essa função: o livro parece estar ali por contiguidade com o assassinato de Yarmolinsky e responde a uma causalidade irônica. "Um desses lojistas que descobriram que qualquer homem se resigna a comprar qualquer livro publicou uma edição popular da "Historia Secreta de los Hasidim". O que é supérfluo numa história, é básico na outra. O livro do lojista é um exemplo (como o volume das "Mil e Uma Noites" em "El Sur"; como a cicatriz em "La Forma de la Espada") da matéria ambígua que faz funcionar a microscópica máquina narrativa que é um conto.&lt;br /&gt;5. O conto é uma narrativa que encerra uma história secreta. Não se trata de um sentido oculto que depende da interpretação: o enigma não é senão uma história que se conta de modo enigmático. A estratégia da narrativa está posta a serviço dessa narrativa cifrada. Como contar uma história enquanto se está contando outra? Essa pergunta sintetiza os problemas técnicos do conto.&lt;br /&gt;Segunda tese: a história secreta é a chave da forma do conto e suas variantes.&lt;br /&gt;6. A versão moderna do conto que vem de Tchecov, Katherine Mansfield, Sherwood Anderson, o Joyce de "Dublinenses", abandona o final surpreendente e a estrutura fechada; trabalha a tensão entre as duas histórias sem nunca resolvê-las. A história secreta conta-se de um modo cada vez mais elusivo. O conto clássico à Poe contava uma história anunciando que havia outra; o conto moderno conta duas histórias como se fossem uma só.&lt;br /&gt;A teoria do iceberg de Hemingway é a primeira síntese desse processo de transformação: o mais importante nunca se conta. A história secreta se constrói com o não dito, com o subentendido e a alusão.&lt;br /&gt;7. "O Grande Rio dos Dois Corações", um dos textos fundamentais de Hemingway, cifra a tal ponto a história 2 (os efeitos da guerra em Nick Adams) que o conto parece a descrição trivial de uma excursão de pesca. Hemingway utiliza toda sua perícia na narração hermética da história secreta. Usa com tal maestria a arte da elipse que consegue com que se note a ausência da outra história.&lt;br /&gt;O que Hemingway faria com o episódio de Tchecov? Narrar com detalhes precisos a partida e o ambiente onde se desenrola o jogo e técnica utilizada pelo jogador para apostar e o tipo de bebida que toma. Não dizer nunca que esse homem vai se suicidar, mas escrever o conto se o leitor já soubesse disso.&lt;br /&gt;8. Kafka conta com clareza e simplicidade a história secreta e narra sigilosamente a história visível até transformá-la em algo enigmático e obscuro. Essa inversão funda o "kafkiano".&lt;br /&gt;A história do suicídio no argumento de Tchecov seria narrada por Kafka em primeiro plano e com toda naturalidade. O terrível estaria centrado na partida, narrada de um modo elíptico e ameaçador.&lt;br /&gt;9. Para Borges a história 1 é um gênero e a história 2 sempre a mesma. Para atenuar ou dissimular a monotonia essencial dessa história secreta, Borges recorre às variantes narrativas que os gêneros lhe oferecem. Todos os contos de Borges são construídos com esse procedimento.&lt;br /&gt;A história visível, o jogo no caso de Tchecov, seria contada por Borges segundo os estereótipos (levemente parodiados) de uma tradição ou de um gênero. Uma partida num armazém, na planície entrerriana, contada por um velho soldado da cavalaria de Urquiza, amigo de Hilario Ascasubi. A narração do suicídio seria uma história construída com a duplicidade e a condensação da vida de um homem numa cena ou ato único que define seu destino.&lt;br /&gt;10. A variante fundamental que Borges introduziu na história do conto consistiu em fazer da construção cifrada da história 2 o tema principal.&lt;br /&gt;Borges narra as manobras de alguém que constrói perversamente uma trama secreta com os materiais de uma história visível. Em "La Muerte y la Brújula", a história 2 é uma construção deliberada de Scharlach. O mesmo ocorre com Acevedo Bandeira em "El Muerto"; com Nolan em "Tema del Traidor y del Héroe"; com Emma Zunz.&lt;br /&gt;Borges (como Poe, como Kafka) sabia transformar em argumento os problemas da forma de narrar.&lt;br /&gt;11. O conto se constrói para fazer aparecer artificialmente algo que estava oculto. Reproduz a busca sempre renovada de uma experiência única que nos permita ver, sob a superfície opaca da vida, uma verdade secreta. "A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido, não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato", dizia Rimbaud.&lt;br /&gt;Essa iluminação profana se transformou na forma do conto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6403401607912297473?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6403401607912297473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6403401607912297473&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6403401607912297473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6403401607912297473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/08/folhetim-1.html' title='FOLHETIM # 1'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp3.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJLgAK1DMgI/AAAAAAAAAAk/Q8YkLjChDxA/s72-c/poe-+trimano.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-5869593838651211497</id><published>2008-07-31T05:44:00.000-07:00</published><updated>2008-07-31T05:50:50.325-07:00</updated><title type='text'>PARÁGRAFO</title><content type='html'>&lt;a href="http://bp1.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJG1EmqYkXI/AAAAAAAAAAc/4ZCUR7otBEU/s1600-h/DON+QUIXOTE.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5229159733056278898" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJG1EmqYkXI/AAAAAAAAAAc/4ZCUR7otBEU/s320/DON+QUIXOTE.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#000099;"&gt;**********************************************************************************&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAPÍTULO 1: Que trata de la condición y ejercicio del famoso hidalgo D. Quijote de la Mancha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no há mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las más noches, duelos y quebrantos los sábados, lentejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto della concluían sayo de velarte, calzas de velludo para las fiestas con sus pantuflos de lo mismo, los días de entre semana se honraba con su vellori de lo más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los cuarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años, era de complexión recia, seco de carnes, enjuto de rostro; gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenía el sobrenombre de Quijada o Quesada (que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben), aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llama Quijana; pero esto importa poco a nuestro cuento; basta que en la narración dél no se salga un punto de la verdad.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;**********************************************************************************************&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-5869593838651211497?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/5869593838651211497/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=5869593838651211497&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/5869593838651211497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/5869593838651211497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/07/pargrafo.html' title='PARÁGRAFO'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_kxwj0NrH0JQ/SJG1EmqYkXI/AAAAAAAAAAc/4ZCUR7otBEU/s72-c/DON+QUIXOTE.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3098219237916707190</id><published>2008-07-25T07:33:00.000-07:00</published><updated>2008-07-29T05:27:15.665-07:00</updated><title type='text'>PROTOTEXTO # 1</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;QWERTY&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Qwerty é um ser fugidio como a lembrança, múltiplo como o desejo e esquivo como o abominável homem das neves. Só existe quando alguém, com um poder muito parecido com o de certos feiticeiros, quer que ele exista e tem meios de fazê-lo viver.&lt;br /&gt;É completamente dependente do seu criador: tem cabeça quando lhe pomos cabeça, tem patas quando lhe nomeamos as patas, e é cego se nos esquecemos de mencionar-lhe os olhos. Tem a forma que queremos que tenha e, por isto mesmo, o Qwerty é um ser único. O último que criei tinha os olhos amarelos e emitia raios azuis. Tinha três patas cavalares, dois rabos diáfanos como caudas de cometa e não pisava no chão. Andava sobre um tapete laqueado em vermelho criado pelo jorro de urina que lançava pelas ventas dois metros adiante.&lt;br /&gt;Um Qwerty é gerado pelo pensamento. Um Qwerty jamais outro. No entanto, pode ser duplicado. Uma mutação do Qwerty não necessita de um útero para ser gerado. Pode ser gerado pela luz, permanecer escondido em um local que não que não existe e ser modificado célula por célula, parte do parte, membro por membro enquanto é gerado.&lt;br /&gt;Os ancestrais dos Qwerty são muito antigos e nasciam de uma substância grossa e negra que escorria da ponta de pedaços de bambu ou de penas de certas aves. Depois vieram as penas de aves metálicas. Alguns deles têm mais de três mil anos. Os Qwerty, como os conhecemos hoje, nasceram quando os homens descobriram que além de escravizar seus semelhantes, poderiam escravizar o tempo.&lt;br /&gt;Alguns Qwertys têm vida longa, outros nem chegam a ser completados. Qwertys podem ser perturbadores. Podem nos levar ao sonho ou à loucura. E mesmo os criados por nós, nunca sabemos como realmente são. Um Qwerty pode fazer o milagre de nos mostrar o desconhecido, nos fazer ver o que nunca vimos ou nos tirar uma noite de sono. Na verdade, os Qwerty são seres incompletos. Uns mais outros menos. Quase sempre se completam na imaginação. É por isso que muitas vezes ele ali se aloja e torna-se quase impossível tirá-lo da cabeça.&lt;br /&gt;Criar um Qwerty é uma tarefa difícil, mas não impossível. Basta obstinação, suor, paciência, imaginação e um pouco de fantasia, pois como dito antes, não há um modelo de Qwerty. O Qwerty é único na sua beleza, exclusivo na sua feiúra, pode ser alto ao ponto de tocar nas nuvens ou diminuto como a nossa sabedoria; é possível encontrar Qwerty munidos de asas ou implumes, pode ser bípede ou perneta, o Qwerty é singular.&lt;br /&gt;Deles já se falava nos Upanishads, na epopéia de Gilgamesh, nos hieróglifos egípcios, no Novo e Antigo Testamento, no Livro dos Mórmons, nos livros apócrifos da Bíblia. Deles falaram Homero, Dante, Dante, Shakespeare, Cervantes e Euclides da Cunha. Alguns dizem que as inscrições da pedra do Ingá falam de Qwertys.&lt;br /&gt;Os Qwertys são intangíveis e gostam de se alojar nos sonhos onde são muito poderosos. Tudo lhes pode ser atribuído, até a bondade. A história dos Qwerty é fascinante e terrível. E eles nisto são muito parecidos com os seres humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geraldo Maciel&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3098219237916707190?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3098219237916707190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3098219237916707190&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3098219237916707190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3098219237916707190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2008/07/qwerty.html' title='PROTOTEXTO # 1'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-3334433678527477513</id><published>2007-07-01T17:22:00.000-07:00</published><updated>2007-07-01T17:28:13.470-07:00</updated><title type='text'>Esporas de Prata</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/RohGhzjUSWI/AAAAAAAAAAU/FCccHiEhOaw/s1600-h/Esporas1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5082389726075570530" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/RohGhzjUSWI/AAAAAAAAAAU/FCccHiEhOaw/s320/Esporas1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre lençóis, recatos e gemidos aconteceu o que transformou Ana em um pingo de luz, um buliçoso ponto de calor crescendo na escuridão. E em pouco tempo começaram os rituais da sua recepção, os preparativos para o seu conforto, o polimento dos rústicos sinais de sua realeza.&lt;br /&gt;Enquanto a mãe pisava sobre coxins, o pai, Andolfo, expedia emissários, estafava cavalos, contratava agrimensores, confirmando os limites de suas possessões. Poliu as pratas, apalpou o ouro, acariciou os braceletes e trancelins que agora encontravam o motivo de sua existência, abandonando a esterilidade dos tesouros.&lt;br /&gt;Confinou bezerros preparando carnes tenras para Ana; selecionou fartos úberes para o seu deleite; podou fruteiras e adubou sombreiros para a satisfação e o repouso da pequena rainha.&lt;br /&gt;E Ana do seu berço escuro enviava sinais de suas exigências: repulsas inusitadas, gostos impensáveis, desejos incomuns.&lt;br /&gt;Na noite em que Ana nasceu, o céu raiou-se de chuva de prata e estrondos incessantes. As rabecas e concertinas rangeram e resfolegaram toda a noite. Abriram-se as comportas das pipas de aguardente. Animais foram trinchados em regozijo. O povo teve acesso aos frutos da terra por um dia.&lt;br /&gt;Ana cresceu entre rendas delicadas e mesuras silenciosas, mas alheia, quase, aos tributos e a vassalagem que todos prestavam à sua beleza.&lt;br /&gt;E para Ana mudavam as estações a um simples desejo seu. Quando ela galopava, pradarias se desenrolavam à sua frente como tapetes; a natureza fazia chover no seu quarto de banho todos os dias, e a brisa a envolvia no sono substituindo seus lençóis.&lt;br /&gt;Tudo para Ana.&lt;br /&gt;E tanta beleza terminou por colocar uma indagação inevitável: Quem, entre os habitantes de tão dispersas moradias, seria o preferido de Ana? Quem ousaria julgar-se merecedor de tão alta prenda? Sua beleza não humilharia os pretendentes?&lt;br /&gt;Em busca dessa taça organizaram-se fanáticas cruzadas e, como as anteriores, sempre inúteis. Em busca de sua atenção organizaram-se justas ruidosas, competições infindáveis. As selas mais ajaezadas, os peitoris mais floreados, os cavalos mais esculturais não emocionavam Ana; os cavaleiros mais audazes, as mais belas feições, a contenda mais temerária, só conseguiam a sua risonha indiferença ou o seu aplauso sem afetação.&lt;br /&gt;Andolfo se divertia com a submissão de tantos cavaleiros e até se comprazia com o acréscimo de poder que isso lhe proporcionava.&lt;br /&gt;Então apareceram as esporas de prata. Um rosto bronze escondendo a inquietude misteriosa de uma raça; uns cabelos tão escuros como o poço sem fundo das origens de sua beleza; um ginete andaluz tão perfeito e maciço como nunca houve igual.&lt;br /&gt;A beleza de sua voz rompeu o escudo de cílios semicerrados que protegiam Ana. O magneto indecifrável dos olhos de Ana traçou o fio invisível que o norteou no labirinto de escuros corredores. Um bálsamo sagrado besuntou as rangentes dobradiças.&lt;br /&gt;Entre lençóis, êxtase e suspiros, aconteceu o que transformou Ana na matriz de uma nova linhagem.&lt;br /&gt;Ela então comunicou ao pai, com a naturalidade com que as rainhas comunicam suas vontades, que podia suspender todos os torneios, deixar repousarem todos os cavalos e permitir que as flores bravas voltassem a renascer nas arenas e nos terreiros:&lt;br /&gt;- Vou ter um filho.&lt;br /&gt;Andolfo ouviu a notícia com a mesma indiferença exterior com que escutava relatórios sobre abundância de colheitas ou pragas invisíveis nos rebanhos:&lt;br /&gt;- Quem é o pai?&lt;br /&gt;Ana anunciou o que sabia ser o início de um sumário e inevitável processo de condenação. E como uma fada que não pode modificar uma maldição, mas atenuá-la com o seu poder, sentenciou:&lt;br /&gt;- Não quero minha filha órfã.&lt;br /&gt;Andolfo não achou necessário dizer sim, pois um desejo de Ana se consumava sem que fosse necessária a sua anuência.&lt;br /&gt;Era madrugada quando chegaram os caçadores e seus cães de narinas de bússola:&lt;br /&gt;- Encontrem o de cabelos negros e esporas de prata nem que seus cavalos gastem as patas até o tornozelo e tragam-no aqui sem um único arranhão!&lt;br /&gt;Andolfo não dormiu até olhar de frente aquele que vencera todos os torneios sem em nenhum deles tomar parte; o que numa solitária cruzada derrotara todos os infiéis que rondavam aquele sagrado templo e diante da platéia de cães e caçadores anunciou a sentença:&lt;br /&gt;- Enquanto Ana e seu filho viverem você viverá. Porém jamais montará seu cavalo; jamais tocará um violão ou cantará; jamais verá Ana e seu filho!&lt;br /&gt;As pradarias continuaram se desenrolando frente ao galope de Ana.&lt;br /&gt;Na noite em que a filha de Ana nasceu, repetiu-se todo o ritual de alegria e toda a ruidosa comemoração que Ana havia tido.&lt;br /&gt;Andolfo convocou novamente os caçadores, suas armas e seus cães:&lt;br /&gt;- Os ciganos que forem encontrados dentro de minhas terras, nelas ficarão para sempre; os que estiverem fora, nela jamais pisarão.&lt;br /&gt;E despachou-os sob os relâmpagos dos fogos de artifício, para dentro da noite escura da vingança.&lt;br /&gt;E em tal noite são pálidos os reflexos dos punhais silenciosos; invisível o rubro borbulhante da sangria; os gritos esmorecem antes de serem escutados e os assassinos betumam os ouvidos para fugirem ao canto tentador da piedade.&lt;br /&gt;Os cães ainda lambiam sangue , no focinho e os cavalos espumantes de suor ainda não haviam se aquietado quando Andolfo completou o pacto: sangue e silêncio contra ouro e prata.&lt;br /&gt;Os assassinos voltaram para sua noite enquanto Andolfo, segurando um lampião, vagueava pelos corredores, tendo a certeza de que nada poderia mudar o curso de suas certezas, ninguém o surpreenderia, agora, com um inusitado ato ou disfarçada malícia. Tão logo fosse tempo, reiniciaria os torneios, anunciaria as competições, onde os melhores, os mais audazes, novos cruzados, se digladiariam até o máximo de bravura, até onde a coragem quase toca a insanidade ou o ridículo, em busca da filha de Ana. O que ele só saberia muito tempo depois é que um dos assassinos rompera o tímpano de cera e que agora carregava no arção da sela, navegando o sereno numa sua cesta de vime, uma criança pequenina, de cabelos muito negros e pele cor de bronze, tendo sob as roupas, como um talismã, um lindo par de esporas de prata.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-3334433678527477513?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/3334433678527477513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=3334433678527477513&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3334433678527477513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/3334433678527477513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2007/07/esporas-de-prata.html' title='Esporas de Prata'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/RohGhzjUSWI/AAAAAAAAAAU/FCccHiEhOaw/s72-c/Esporas1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-8450002156651623091</id><published>2007-06-19T15:58:00.000-07:00</published><updated>2007-06-19T16:08:50.639-07:00</updated><title type='text'>A GARRAFA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/Rnhh8Fu1EDI/AAAAAAAAAAM/5b0Bcuh4qo8/s1600-h/GARRAFA.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5077916264818872370" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/Rnhh8Fu1EDI/AAAAAAAAAAM/5b0Bcuh4qo8/s320/GARRAFA.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ÀS CINCO E TRINTA DA MANHÃ, ao abrir a porta para pegar o jornal, o morador da quadra 25, lote 6, da rua Portal do Paraíso encontrou uma garrafa de vidro, fechada com uma rolha de cortiça, na soleira de sua porta. Escura, não deixava ver se algo havia em seu interior. O jornal do dia estava atirado dois degraus abaixo. Nem pegou os jornais. Passou sobre a garrafa, olhou a garrafa, cheirou a garrafa e afastou-se, parando no jardim, a cerca de três metros do inusitado objeto, protegendo-se atrás de um canteiro de rosas, como se pressentisse algum perigo. Começou a examinar de longe aquele objeto estranho e inoportuno, que não devia estar ali. Como não sabia o que fazer, ficou andando de um lado para outro até que resolveu chamar os vizinhos.&lt;br /&gt;Chamou os vizinhos da direita e da esquerda, com quem não mantinha relações estreitas, apesar de três anos morando lado a lado, comunicou a inusitada aparição e pediu a opinião dos dois. O vizinho da direita, ainda sonolento, achou que aquilo lá era o que parecia: uma garrafa. Por precaução sugeriu chamarem os bombeiros, a polícia, a defesa civil. O vizinho da esquerda, imaginando não se sabe o quê, afastou-se dez metros da cena e disse não saber o que aquilo poderia ser, além de ser, na aparência, uma garrafa.&lt;br /&gt;O morador da quadra 25, lote 6, acordou a família e tentou convencer a mulher a levar as crianças até à casa do cunhado, seis quadras adiante. Aquele objeto conhecido podia ser um enorme problema caso não fosse uma inocente garrafa. E sendo algo mais que uma garrafa, poderia trazer constrangimento ou perigo. Podia ser uma bomba, poderia conter um líquido envenenado, disse aflito morador da quadra 25, lote 6. Mas pode ser só uma garrafa de leite que um leiteiro deixou por engano, disse a mulher do intranqüilo morador. Ah, não! Retrucou a filhinha do casal, a de oito anos, bem que pode ser uma garrafa com uma mensagem! Podia conter uma mensagem, sim, já que era uma garrafa, e transportar mensagens sempre foi a principal finalidade das garrafas. Afinal garrafas trazendo mensagens em seu interior são acontecimentos corriqueiros desde que existem garrafas, náufragos e crianças. O que não se sabe é do conteúdo de tais mensagens. Pode ser uma simples brincadeira ou uma verdade perturbadora e perigosa.&lt;br /&gt;Parece que a opinião da criança acalmou os adultos e em poucos instantes desistiram de chamar os bombeiros e o esquadrão anti-bombas, não restando outra coisa ao morador da quadra 25, lote 6 senão destampar a garrafa. Ainda temeroso, destampou-a como se abrisse um envelope, ou seja, curioso pelo que pudesse haver no seu interior.&lt;br /&gt;A criança menor esperou que saísse uma fumacinha da garrafa e se formasse o gênio ao qual ela faria três pedidos; a mãe olhando por cima do ombro do marido, o incentivava a agir com presteza, acabar com o mistério. A criança de oito anos insistia na mensagem que com certeza havia no interior da garrafa. O morador olhou para dentro da garrafa, viu alguma coisa, olhou novamente, agora colocando a garrafa contra a luz e finalmente disse: parece haver uma mensagem.&lt;br /&gt;Conseguiu retirar um papel enrolado como um charuto e, diante de todos, desenrolou-o lentamente. Leu: “Quando você ler esta mensagem, tudo já terá terminado”. E havia um rabisco como se fosse uma assinatura. Uma brincadeira! Coisa de quem não tem o que fazer! Disse a mulher, e os vizinhos repetiram: Coisa de quem não tem o que fazer!&lt;br /&gt;O morador da quadra 25, lote 6, no entanto não dormiu naquela noite. Já tarde, quando todos dormiam, levantou e foi olhar a garrafa que havia deixado ao pé de um vaso no jardim. Pegou-a, cheirou-a, cheirava a sal e mar, recolocou-a ao pé do vaso. Como ela pode ter vindo parar aqui? Quem escreveu aquele bilhete? O que ele quis dizer?&lt;br /&gt;Voltou até sua escrivaninha, pegou uma folha de papel, um lápis, e escreveu: “Se você ler esta mensagem é porque nada terá terminado.” Enrolou-a como um charuto e colocou-a dentro da garrafa; apertou a rolha para que não pudesse entrar água e deixou-a no mesmo local onde a havia encontrado pela manhã.&lt;br /&gt;À noite sonhou com uma garrafa à deriva.&lt;br /&gt;No outro dia, muito cedo, levantou e foi pegar o jornal. A garrafa já não estava lá.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-8450002156651623091?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/8450002156651623091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=8450002156651623091&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8450002156651623091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/8450002156651623091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2007/06/garrafa.html' title='A GARRAFA'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_kxwj0NrH0JQ/Rnhh8Fu1EDI/AAAAAAAAAAM/5b0Bcuh4qo8/s72-c/GARRAFA.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-6954645768026405612</id><published>2007-06-18T16:20:00.000-07:00</published><updated>2007-06-18T16:28:00.724-07:00</updated><title type='text'>Dever cumprido</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;     O Ermo é um caldeirão onde se formam os mormaços que rondam mundo afora. Lá não voam pássaros nem nascem flores. Só répteis e roedores se dissimulam entre pedras e tocas escuras. Não consta em cartas geográficas, mapas ou levantamentos de qualquer espécie. Ninguém até hoje reclamou sua posse e as cercas se desviam daquela depressão descomunal com medo de se perderem e nunca fecharem o círculo.&lt;br /&gt;Tempos atrás apareceram uns homens soturnos, vasculhando aqueles segredos com lunetas, fotografias e vôos adejantes de helicópteros. Tencionavam usar aquela Sibéria às avessas como um depósito de lixo atômico, degredo para inimigos políticos ou isolamento para criminosos irrecuperáveis? Vieram, registraram e nunca mais apareceram.&lt;br /&gt;     Pois ali, naquela axila do universo, moram três homens. O pai e dois filhos. Ninguém atina com o hediondo crime que os encurralou naquelas profundezas. Não se imagina o peso de remorso tão insuportável capaz de impor tal mortificação voluntária. Que crime seria capaz de suplantar em castigo o castigo legal? Que loucura tão sem comparação faria alguém enfrentar a natureza onde ela é mais terrível e rancorosa?&lt;br /&gt;Nem crime nem loucura. Quem sabe, fuga ou medo? Estavam ali tentando salvar a própria alma após terem sido empurrados por um exército de cercas e arames farpados que sempre estavam nos seus calcanhares quando acordavam. Quando ali desceram as cercas pararam seu assédio, o censo riscou-os de sua lembrança, os patrões se esfumaçaram. Ali, só a brutalidade muda da natureza, o espesso silêncio das distâncias, a aridez do paraíso de Caim. E na solidão encontrada, o velho encontrou tempo para recensear os pecados e suas formas de expiação. Afinal, quem somos nós, dizia, senão pecadores? Que mais poderia Deus nos oferecer como paga do que temos feito? Os dois filhos nada respondiam.&lt;br /&gt;     O velho se aprofundava nos mistérios do apocalipse enquanto os filhos cuidavam da provisão. Quando vinham à cidade assistir à missa do galo, os filhos cuidavam de adquirir sal.&lt;br /&gt;     Naquela terra, onde os répteis se alimentavam do próprio rabo, viviam eles, descobrindo quistos de fertilidade microscópica sob pedras, raízes sumarentas sob a crosta seca, umidades insuspeitas em grotões; com os olhos rápidos da precisão localizavam preás sorrateiros sob a cabeleira desgrenhada das macambiras, e água invisível porejando num paredão de caverna.&lt;br /&gt;     Um dia o velho virou-se para os dois filhos e disse: - Hoje eu vou morrer. Quero água para lavar os pés e peço para vocês que me façam a última vontade. Quero ser enterrado em cemitério cristão. Depois disso, vocês tomem o destino que acharem mais conveniente. Antes de virar a página do apocalipse a mosca varejeira já rondava aquelas narinas estriadas de varizes.&lt;br /&gt;     Do ermo até a casa mais próxima era preciso um dia de penosa viagem vencendo aceros, cortes, descidas, lombadas, serpenteios, socavões, súbitas subidas, abismos e chã batida. Uma idiota topografia fazia o caminho rodopiar sobre si próprio sem se repetir; uma lógica inalcançável traçava aquela superfície de Moebius embriagada.&lt;br /&gt;     Providenciado o fornido pau que suportaria a rede para o último translado, os filhos constataram a dificuldade da tarefa que teriam de concluir; o castigo da última vontade do velho pai. Sozinhos não aportariam no cemitério nos prazos que a morte estipulava. Computando o cansaço, o caminho, a sede, a chaga nos ombros e as bolhas sob os pés, não usariam menos de dois dias. Os vermes não lhe dariam prazo tão dilatado. Caminhando à noite exporiam o velho ao faro sutil dos guaxinins, e eles próprios ao bote silencioso da suçuarana. Durante o dia seria penoso romper o nevoeiro espesso das moscas e não se desesperar ante a ronda aérea da esquadrilha de urubus.&lt;br /&gt;      Além do mais, o respeito cultivado durante tantos anos talvez não suportasse presenciar o velho desconjuntar-se, efervescente, esvaindo-se num rastro de lodo e pus pelo caminho, servindo de repasto à língua aquosa dos cachorros do mato.&lt;br /&gt;      Dois dias e meio depois os filhos concluíram a tarefa exigida. Sem reclamar, lavaram as chagas com cachaça, esperaram os calos se recomporem e rumaram para São Paulo antes da missa de sétimo dia.&lt;br /&gt;Quase dois anos depois, a exigüidade do cemitério e uma escolha casual do coveiro acenderam um debate canônico naquela comunidade de leigos. Ao escolher aquela cova para sobrepor mais um cadáver, o coveiro deu de cara com o velho do Ermo quase intacto. O rosto um pouco mais seco, as órbitas vazias, mas completamente intacto.&lt;br /&gt;     Seria o velho um desses santos desapercebidos ante quem a sanha dos vermes se retrai respeitosa? Ou seria um perverso de quem o infalível tapuru guarda distância temerosa? O debate acendeu os ânimos, fendeu a comunidade em dois partidos, e só não deu origem a apostas porque todos sabiam que o veredicto sobre tal causa dificilmente contentaria a parte perdedora. O pêndulo dessa discussão oscilava entre canonização incontestada e a execrável e desabonadora excomunhão quando o coveiro, a quem coubera os últimos cuidados com o morto, cometeu a indiscrição delatora: o defunto que ele enterrara talvez jamais seria comido pelos vermes. Não por santidade ou por demasia de maldades. É que os pobres rapazes, querendo atender à última vontade do pai, haviam salgado e amarrado o velho de tal forma que a podridão demoraria tanto a chegar a ele como demoraria para consumir um fardo de charque.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-6954645768026405612?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/6954645768026405612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=6954645768026405612&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6954645768026405612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/6954645768026405612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2007/06/dever-cumprido.html' title='Dever cumprido'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32681187.post-115552002754120639</id><published>2006-08-13T18:46:00.000-07:00</published><updated>2006-08-16T06:37:07.020-07:00</updated><title type='text'>SOLINGEN - Aquelas criaturas tão estranhas - 1995</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/2953/3575/1600/NAVALHA%201.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2953/3575/320/NAVALHA%201.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Luquino quase desfaleceu quando doutor Adãozinho, sem aviso prévio, preâmbulos guturais, ou qualquer palavra amaciante, lhe fez a convocação para, sem quê nem mais, assumir a função de barbeiro na cidade onde exercia oposição política e o férreo poder sobre várias cabeças de gado e gente. Já estava tudo montado: cadeira reclinável, espelho, guarda-pó, e tudo o mais necessário à necessária atividade.&lt;br /&gt;Quando Luquino pensou em opor negaças, doutor Adãozinho entendeu como anuência e deu por selado o compromisso, virando-lhe as costas e descendo os batentes até o jipe.&lt;br /&gt;- Amanhã você começa. Fique por aqui até eu lhe arranjar casa na cidade.&lt;br /&gt;Mas doutor, eu nunca fui barbeiro, não sei da profissão, pensou Luquino em falar, mas quando abriu a boca para realçar suas incapacidades, enfileirar suas reticências, engoliu a poeira do jipe que já arrancava.&lt;br /&gt;A mulher, antevendo morar na cidade, tentava inflar suas qualidades. Ele cortava o cabelo dos meninos, fazia sua própria barba. Seria fácil fazer a dos outros. Além do mais, não era muito diferente cortar rente o capim para o gado, o arroz já maduro, onde as borbulhas da água lodosa eram até mais densas que a espuma de barbear. E a poda das fruteiras? Que poderia haver de mais parecido com um corte de cabelo que o desbaste de uma frondosa mangueira? Que fazia Luquino no pé de fícus senão coisa idêntica a um corte da moda, cheio, artístico? E pelar um porco? Mesmo sem se poder usar água fervente, ninguém teria a barba mais dura que as cerdas de um suíno.&lt;br /&gt;A mulher sonhava por entre roncos com um fogão a gás de quatro bocas enquanto Luquino treinava com uma peixeira o segredo de afiar uma navalha sobre a alça de um estribo.&lt;br /&gt;Dia seguinte, cedo, cedo, o primeiro feirante já encontrou Luquino de guarda-pó e um sorriso de resignação. Chegara cedo para examinar aquela estranha ferramentaria. Descobriu o manejo da cadeira, suas graduações e ângulos; atinou com a serventia da bombilha de borrifar água perfumada; dispôs tigelas e pincéis, solas de afiar, abrasivos; testou máquinas de corte e tesouras. Olhou, demorado, a pedra-ume. Tudo em ordem. E lá no canto, num estojo quase luxuoso, dormitava o drácula dos seus sonhos, a geladeira de seus suores, o descontrole de seus nervos, os intervalos mudos de sua fala: a navalha. Uma solene Solingen, imaculado brilho, nobreza silenciosa, corte de assobio. O cabo de madrepérola escondia o fio invisível, o azougue mágico que podia cortar a luz ao meio, dividir um grão de ar; suave como nada, veloz como um susto. Abriu o estojo, colocou-o sobre a mesinha e recuou um pouco para admirar aquela terrível maravilha.&lt;br /&gt;E teriam suas mãos calosas suficiente delicadeza para brandi-la com suavidade? Assombrava-o a diferença entre sua artística forma e a haste tortuosa do pereiro suportando, como uma cunha, a metade de uma lâmina da gillete, o único aparelho de barbear que conhecera até então.&lt;br /&gt;Olhava, magnetizado, aquela perturbadora coisa que poderia modificar sua vida, para o bem ou para o mal, e não percebeu que uma pequena multidão já formara um semicírculo na calçada, sem que ninguém ousasse ultrapassar o invisível cordão de isolamento. Luquino tentou cativar a primeira vítima com um sorriso; quase fez uma careta.&lt;br /&gt;A pequena platéia silenciou e fendeu-se para dar passagem a doutor Adãozinho. Um metro e cinqüenta de pessoa, dois metros e vinte de autoridade e empáfia.&lt;br /&gt;- Tudo pronto, Luquino? Vim fazer a inauguração!&lt;br /&gt;E foi sentando na cadeira. Luquino pediu a Deus para ser transformado em estátua de sal. Ah, se ainda existisse Pôncio Pilatos para que ele padecesse sob seus poderes! Quis ser crucificado, morto e sepultado. Desceu aos infernos e no terceiro piscar de olhos ressurgiu dos mortos!&lt;br /&gt;Reclinou a cadeira e olhou temeroso aqueles dois palmos de barba, virgem de lâmina, e tentou imaginar a fragilidade daquela pele branca, delicada, protegida do sol durante tanto tempo. Quantos sinais traiçoeiros dormitavam por baixo daquele cipoal grisalho? Que escaras em carne viva aguardavam sua imperícia e selariam sua desgraça? Enquanto espalhava a espuma, Luquino sentia o olhar fuzilante do doutor Adãozinho bater nos caibros, refletir-se no espelho e despejar aquele azul fulminante que poderia transmutar-se em cólera a qualquer momento.&lt;br /&gt;Acordou a Solingen de sua fresta, afastou a lâmina numa rotação de 270 graus - lâmina entre polegar e indicador, cabo entre anular e mínimo - e respirou fundo. Se não houve um surdo murmúrio na platéia, os tímpanos de Luquino inventavam ruídos. Seus olhos confirmaram a pedra-ume pronta para um emergencial estancamento de sangue e com um seja feita a vossa vontade, aqui na terra como no céu, fez a lâmina deslizar sobre o queixo de pele flácida. E lembrou da mulher que lembrava do fogão a gás e a face do doutor Adãozinho passou a ser um campo de cerrado mata-pasto, uma terrível capoeira onde ele não poderia desdentar sua estrovenga. Pressentiu o sinal de carne esticando o pescoço para ser decepado e mandá-lo ao inferno. Rodeou-o carinhosamente como fazia com os tenros pés de milho perdidos entre as ervas daninhas. O azougue da Solingen ia deslizando entre rugas e escaras, acompanhando mansamente a topografia da ossuda mandíbula. Até agora nenhum raio de sangue naquela pele branca, de suíno. A mão hesitou nas proximidades do sextavado pomo e nesse instante o Satanás lhe soprou, num desvão qualquer de seu toldado juízo, um pensamento: se tremesse agora ia ser uma sangueira feia, e não haveria salvação. Se isso acontecesse, o único remédio era continuar o serviço, cortar fundo, ir até o osso do pescoço, já quase do outro lado e fugir, deixando atrás de si uma goteira de sangue e mistério que o povo relembraria tempo adentro. Ou, se as pernas não concordassem com a fuga, era só levantar o guarda-pó e, com um tênue risco sobre a barriga, precipitar uma avalancha de tripas que os cachorros devorariam junto com o seu medo. Disfarçou um sinal da cruz e deixou a navalha trabalhar.&lt;br /&gt;Nenhum corte, nenhum poro supurado; os sinais intactos, as escaras intocadas. Na recusa do loção de barba, provocou uma nuvem de pó sobre aquele campo limpo, sobre a melhor broca de sua vida. Doutor Adãozinho levantou da cadeira, inflou as bochechas contra o espelho, acariciou o queixo com as costas da mão e olhou para Luquino:&lt;br /&gt;- Muito bem, rapaz. A barbearia é sua!&lt;br /&gt;E saiu. A até então contida assistência invadiu a barbearia com gritos, vivas e urras. Luquino quis chorar, mas disfarçou olhando o triângulo peludo da bela moça da Pirelli. Pensou nos meninos, na mulher que pensava no fogão a gás e falou como se tivesse que fazer discurso:&lt;br /&gt;- O próximo menino lá de casa vai se chamar Solingen!&lt;br /&gt;De uma foto de página inteira da Manchete colada na parede, Bertrand Russel sorria como uma sexagenária Mona Lisa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32681187-115552002754120639?l=aquelascriaturas.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/feeds/115552002754120639/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32681187&amp;postID=115552002754120639&amp;isPopup=true' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/115552002754120639'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32681187/posts/default/115552002754120639'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://aquelascriaturas.blogspot.com/2006/08/solingen-aquelas-criaturas-to.html' title='SOLINGEN - Aquelas criaturas tão estranhas - 1995'/><author><name>geraldomaciel</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07445445870028380239</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>20</thr:total></entry></feed>
